quarta-feira, 11 de julho de 2012


A direção do tratamento na neurose.

É possível falar em direção de tratamento em psicanálise?



O analista dirige a análise, quando não dirige o analisando.

A regra fundamental em psicanálise é a associação livre. O analisando em análise fala o que lhe vem a cabeça. Sendo assim o seu discurso habitual se desloca.

A partir do discurso analítico o analisante fala e retoma sua história, seus mitos, suas dores e seus amores. Enfim , o sujeito "vê" o mundo por uma lógica particular e a partir das diversas identificações que vão sendo construídas no decorrer de uma vida. No decorrer da análise busca encontrar um sentido (verdade) que o nomeie.

A medida que passa a ouvir-se, percebe seus equívocos na fala, seus paradoxos. E começa a implicar-se com aquilo que é falado. O analista por sua vez através de suas intervenções favorece esse caminho/descaminho.

“Não é certeza, não é garantido, mas o analista é o único que tem a chance de ser intérprete”.(lacan). Ele responde de um lugar justamente por já ter recebido notícias de sua própria falta, de que não há um único sentido, enfim o analista já teve notícia da castração.
Na análise o inconsciente é colocado em jogo, através do analista, pois a princípio o analisando geralmente não quer saber disso.
Desta forma, podemos dizer que interpretação é o que objetiva uma análise: uma interpretação não-toda de um sujeito dividido entre inconsciente e consciente. Enfim sempre existirá um “resto” o umbigo do sonho pelo dizer de Freud inacessível.

Poderíamos nos perguntar, então, se a psicanálise, como dispositivo clínico, não seria prejudicada por esse ponto de umbigo. A resposta é não. Ao contrário, a psicanálise é a única teoria clínica que comporta uma impossibilidade de saber no seu interior, o que a faz ser totalmente diferente de todas as outras teorias e dispositivos de intervenção clínicos.
A partir da relação transferencial, o analista transmite uma mensagem: “É você quem detém o texto e as respostas que procura, mas sou eu que o dirigirei a elas”.

Frente a um não saber por parte do analisando, o analista coloca em palavras algum tipo de significado, mas sempre algo incoberto, sempre cuidando para não trazer um significado que não foi colocado pelo analisante. O analista põe em palavras alguma coisa a ser transmitida. Transformando um significado em significante.

Antes de iniciar uma análise

A pessoa pensa que seu problema é se adequar ao mundo, adequar sua palavra a coisa.

Se ela ganha bem, ela é feliz. Se deixa de ganhar bem, é infeliz

Se seu namorado lhe diz “Eu te amo, ela é feliz. Se isso não ocorre é infeliz.”

 O problema de sua existência esta numa relação direta entre ela e o mundo, ou seja, entre a palavra e o objeto, esta assujeitada a uma verdade referencial.  Enfim existe um objeto bem definido pelo qual se queixa e do qual ela procura se curar. O mal-estar refere-se a essa coisa ruim que está fora do sistema lingüístico que a língua nomeia.

Quando está em análise

O sujeito sai da verdade referencial para a verdade contextual. A verdade não é mais buscada fora da língua, mas na própria língua.  A verdade é buscada na associação livre, e não numa referência fora dela.

Um exemplo clássico, a carta 69 de Freud a Fliess: “Não acredito mais na minha neurótica”, ou seja, não acredito mais na minha teoria das neuroses. Até esse momento Freud acreditava que a histérica havia sofrido de fato abuso e seu sofrimento era decorrente dessa sedução. Ao observar que várias histéricas diziam a mesma coisa, Freud só tinha duas opções: ou achar que todo pai era perverso, inclusive o seu, ou que havia algo comum ao discurso histérico. Ele percebe que não se refere a um objeto fora, mas que é uma construção própria da pessoa.

Referências:


VEGH, I. As intervenções do analista. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2001
QUINET A. 4+1condições da análise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.




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