sexta-feira, 10 de junho de 2016

Início da leitura: S. Freud: “Os chistes e sua relação com o inconsciente” (1905)




Neste ano estou participando de alguns seminários de psicanálise lacaniana, e num destes o texto a ser lido foi justamente: “Os chistes e sua relação com o inconsciente” - DER WITZ UND SEINE BEZIEHUNG ZUM UNBEWUSSTEN (1905) de Freud. Durante o mês lemos este livro quase ao “pé da letra”. Num primeiro momento a leitura me pareceu cansativa, pois achei o texto repetitivo, não entendia onde Freud queria chegar, mesmo com os comentários dos colegas, e a releitura de Lacan. Eu ficava me perguntando: Qual a intenção de Freud ao escrever o livro sobre os chistes? Deve ser por algum motivo interessante, pois Lacan no seminário cinco utilizou este texto para suas elaborações. De repente fui fisgada, e desejava saber mais sobre os chistes: O que será que tem de tão interessante neste texto sobre os chistes ou nos próprios chistes que fez Freud e Lacan elaborarem suas questões sobre o inconsciente? Enfim, Continuei a ler...

Após a leitura, em conversa casual sobre o texto com uma colega lembrei-me de um caso que atendi, e de como este analisante construía chistes (tiradas espirituosas), o “menininho” era uma máquina de fazer chistes. Será que existe alguma intenção quando alguém conta um chiste, além de fazer o outro dar risada? Finalmente Eu e a colega decidimos escrever sobre os chistes, articulado ao caso em questão. Por conta disso estou relendo o texto e aproveitando para escrever ao Blog. 

Aquela questão sobre a intenção de Freud ao escrever sobre os chistes, a intenção de Lacan ao reler o texto sobre os chistes e utilizá-lo na construção do seu grafo e finalmente a intenção daquele que conta os chistes para fazer alguém rir são combustíveis à minha escrita.

Já nas “notas do editor” do livro: “Os chistes e sua relação com o inconsciente” há informações importantes a nortear a leitura.

- As razões subjetivas para Freud dedicar-se ao problema dos chistes se iniciaram na escrita do livro: A interpretação dos sonhos (1900). Wilhelm Fliess interlocutor de Freud, entre ambos havia uma parceria no que diz respeito a construção da teoria psicanalítica. Trocavam correspondências, nas quais discutiam a psicanálise. Numa dessas correspondências, datada 11/09/1899, ao ler os rascunhos de A Interpretação de Sonhos no outono de 1899, Fliess queixou-se da enorme presença dos Chistes nos sonhos. Freud diz a Fliess que pretendia inserir em seu livro uma nota explicando o fato curioso: “a presença nos sonhos de algo que se aparece aos chistes” (Freud, 1950a, Carta 118).

- Parece que até mesmo antes de sua obra: A Interpretação dos sonhos, há evidências do interesse teórico de Freud pelos chistes. “Em carta a Fliess, de 12 de junho de 1897 (Freud, 1950a, Carta 95), após citar um chiste sobre dois Schnorrer, Freud escreveu: “Devo confessar que desde há algum tempo estou reunindo uma coleção de anedotas de judeus, de profunda importância’. Alguns meses depois, a 21 de setembro de 1897, cita uma outra história de judeu, como pertencente ‘a minha coleção, (Carta 69), e inúmeras outras aparecem tanto na correspondência com Fliess como em A Interpretação de Sonhos.” 

- Ernest Jones (Biógrafo de Freud) descreve o livro: Os chistes e sua relação com o inconsciente, como o menos conhecido dos trabalhos de Freud.

- Neste livro há problemas na tradução, dificuldades terminológicas entre o alemão e inglês, pois na construção do chiste há o uso do jogo de palavras, do nonsense, oposição e semelhança entre as palavras, ou a junção de vários elementos formando uma nova palavra. Enfim nos chistes o som de cada letra tem grande importância, como cada língua apresenta suas particularidades, por vezes é impossível traduzir um chiste ou um jogo de palavras. 

- O próprio termo “Chiste” traz outras possibilidades de tradução: “O próprio título do livro, ‘Der Witz‘ já se nos depara um importante problema. Traduzi-lo como ‘wit’ abre as portas para mal-afortunadas incompreensões. No uso inglês normal ‘wit’ e ‘witty’ têm um sentido altamente restrito e aplicam-se apenas a uma espécie de chistes mais refinados ou intelectuais. O mais sumário exame dos exemplos nestas páginas mostrará que ‘Witz‘ e ‘witzig‘ possuem conotação muito mais ampla. ‘Joke’ (chiste) por outro lado parece ser ampla demais e cobrir igualmente a alemã Scherz. A única solução para este, e para dilemas similares, parece ser a adoção de uma palavra inglesa para alguma correspondente alemã, mantê-la consistente e invariavelmente mesmo se parece errada em um determinado contexto. Deste modo o leitor ao menos poderá tirar sua própria conclusão quanto ao sentido em que Freud está usando tal palavra. Assim, através de todo o livro ‘Witz’ foi traduzido como ‘joke’ (chiste) e ‘Scherz‘ como ‘jest’ (gracejo). Há grande dificuldade com o adjetivo witzig, usado aqui na maioria dos casos como adjetivo qualificante de Witz. “

Na introdução do livro diversos autores definem o que seriam os chistes 

“De acordo com Lipps (1898), um chiste é ‘algo cômico de um ponto de vista inteiramente subjetivo’, isto é, ‘algo que nós produzimos, que se liga a nossa atitude como tal, e diante de que mantemos sempre uma relação de sujeito, nunca de objeto, nem mesmo objeto voluntário. Segue-se melhor explicação por um comentário de que o efeito daquilo, que, em geral, chamamos um chiste, é qualquer evocação consciente e bem-sucedida do que seja cômico, seja a comicidade devida à observação ou à situação’.”

‘Fazer chistes é simplesmente jogar com as ideias’. “Uma apreciada definição do chiste considera-o a habilidade de encontrar similaridades entre coisas dessemelhantes, isto é, descobrir similaridades escondidas. Jean Paul expressou esse próprio pensamento em forma de chiste: ‘O chiste é o padre disfarçado que casa a todo casal’. Fischer [1846-57, 1, 422] avança esta definição: Ele (o padre) dá preferência ao matrimônio de casais cuja união os parentes abominam’. Fischer objeta, entretanto, que há chistes em que não se cogita de comparar, em que, portanto, não se cogita de encontrar similaridades. Divergindo ligeiramente de Jean Paul, define o chiste como a habilidade de fundir, com surpreendente rapidez, várias idéias, de fato diversas umas das outras tanto em seu conteúdo interno, como no nexo com aquilo a que pertencem. Fischer, novamente, acentua o fato de que em largo número de juízos chistosos encontram-se diferenças, antes que similaridades, e Lipps indica que estas definições se relacionam à habilidade própria do piadista e não aos chistes que ele faz.”

O termo chiste, segundo o dicionário apresenta diversas definições: 1. Graça; facécia, pilhéria. 2. Poesia ou canção picaresca. 3. Malícia disfarçada que um dito ou um escrito encerra. 

Segundo o Wikipedia o chiste é uma palavra, frase, história afiada e engraçada ou ocorrência. É uma curta série de palavras ou uma pequena história falada ou escrita com fins cômicos, irónico ou burlesco, que contém um jogo verbal ou conceitual capaz de riso em movimento e fundada no humor . Muitas vezes, ele apresenta ilustrada por um desenho.

Deve ser distinguida da piada , que é criar uma situação cômica de uma pessoa, uma situação ou um acontecimento real, enquanto um gag difere piada que o humor não é verbal, mas visual, como no caso de tartazo ou lançamento de bolos de creme ou bolos a cara tipo característico de alguém da comédia pastelão



Continua....