sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O que quer uma mulher? A busca pelos ideais contemporâneos e o frequente encontro com a insatisfação.


Toda mulher busca para si um traço que a identifique como mulher. ela não existe como um todo. A mulher esta sempre em busca um traço, uma marca, um contorno como a maquiagem, roupas exuberantes, enfim algo que recubra sua falta fundamental.

Nosso primeiro espelho é o olhar de nossos pais. Nosso corpo é marcado pelo investimento pulsional desses e por seus ideais narcísicos. Desde o nascimento e durante toda infância somos em parte objeto de manipulação pelos outros, mas somos também sujeitos. 

Antes do nosso nascimento, somos seres falados, caracterizada pelos desejos dos pais. Nosso nome é escolhido, nosso lugar é determinado e expectativas são projetadas para nós, mas não estamos totalmente passivos nessa constituição, apesar de estarmos alienados no desejo do Outro. Somos a princípio banhados pelas palavras maternas, por seus toques que delimitam nosso corpo e marcam em nossa carne o seu desejo materno.

Na adolescência nos deparamos com um corpo em transformação, vivenciamos o luto do nosso corpo infantil, momento em que colocamos em xeque as palavras dos nossos pais, apesar de essas palavras ainda serem referência.  Ë nesse momento também que damos maior importância ao bombardeamento de revistas, filmes, anúncios de publicidade, que nos fornecem a imagem do que é ser uma mulher. Os ideais massacrantes da cultura que parte de um padrão irrealizável.  

Num primeiro momento acreditamos que com esforço pessoal será possível a aquisição dessa imagem perfeita: estudo, trabalho e academia seriam meios para se adequar a esse modelo. Pertencer a um suposto grupo de mulheres que ao mesmo tempo são sexys e femininas e/ou fálicas e feministas,  porém por mais que a mulher busque isso e a sociedade imponha esses modelos sobre o que é ser uma mulher, essa questão esta sempre aberta, o que torna a mulher a cada dia  mais insatisfeita. Não há “A mulher” como um grupo, cada mulher constitui sua feminilidade e seu modo de lidar com a castração de uma maneira singular, talvez por isso existam tantos modelos de roupas, maquiagens e cortes de cabelos femininos, é como se cada mulher precisasse afirmar-se como única. Mas como ser mulher? Talvez uma saída seja parar de buscar essas referências imaginárias do que supostamente deveria ser uma mulher e simplesmente ser mulher a partir de sua singularidade.

Talvez a busca de controlar o corpo, a sua forma, encobre uma dificuldade em voltar-se para si e buscar os próprios desejos, escolhas pessoais, a própria forma: de ser mulher, mãe, esposa, profissional, filha. Enfim, todas as possibilidades que o feminino contém. A feminilidade é uma construção e é imprescindível rejeitarmos um modelo pré-fabricado, do que é ser mulher, em favor de buscarmos nosso próprio estilo.

Luto e melancolia (1917)


Neste artigo Freud discutiu a Melancolia, fazendo uma analogia com o estado de luto. Ambas condições são decorrentes da perda de determinando objeto, importante ao sujeito. (objeto amoroso, liberdade, ideal, pátria). Dois textos anteriores são articulados neste texto: Sobre o Narcisismo: Uma introdução (1914), onde o Eu e sua constituição são colocados em pauta  e As Pulsões e seus destinos (1915) o viés econômico da pulsão e do aparelho psíquico.

O que é a Melancolia e o que é o Luto?

O luto é uma reação à perda de algum objeto. No luto supõe-se um tempo de elaboração. Algo muito querido se foi, e o luto precisa ser elaborado. Alguns fenômenos são próprios ao momento do luto, como por exemplo a suspensão do interesse pelo mundo externo. Entretanto após este período, ocorre a  superação, e a vida  segue com novos investimentos. Na melancolia, há uma estado de animo profundamente doloroso, há também a suspensão do interesse pelo mundo externo. Na melancolia, nem sempre há um objeto concretamente perdido, ou por vezes há um objeto que se perdeu, mas o melancólico não consegue nomeá-lo: " (...) o doente não consegue nem dizer, nem apreender conscientemente o que perdeu..." S. Freud. Luto e melancolia (1917)

Existem traços em comum entre luto e melancolia: desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar e a inibição de toda e qualquer atividade.

A melancolia evolui do estado de animo profundamente doloroso e o desinteresse pelas coisas do mundo externo à depreciação de si mesmo, chegando por vezes ao delírio de punição de si mesmo. A inibição no melancólico é enigmática porque absorve a pessoa completamente.  O eu se torna pobre e vazio. No luto é o mundo que se torna pobre e vazio.

A perda na melancolia é também inconsciente. O melancólico retorna a libido que investia no objeto supostamente perdido ao eu(narcisismo secundário - Psicose). Diferentemente da paranoia(outra estrutura psicótica), onde este reinvestimento no eu, traz consigo a ilusão de integridade na forma de certeza, a megalomania. Na melancolia, o reinvestimento no eu traz a depreciação de si mesmo e o rebaixamento da auto-estima. Por que isso ocorre, já que há um reinvestimento na libido no eu?

Freud sobre a Melancolia:
"O paciente representa seu ego para nós como sendo desprovido de valor, incapaz de qualquer realização e moralmente desprezível, ele se repreende e se envilece, esperando ser expulso e .punido. Degrada-se perante todos, e sente comiseração por seus próprios parentes por estarem ligados a uma pessoa tão desprezível. Não acha que uma mudança se tenha processado nele, mas estende sua auto-crítica até o passado, declarando que nunca foi melhor. Esse quadro de um delírio de inferioridade (principalmente moral) é completado pela insônia e pela recusa a se alimentar, e o que é psicologicamente notável por uma superação da  pulsão que compele todo ser vivo a se apegar à vida." S. Freud. Luto e melancolia (1917)

Existe algo no melancólico que lhe consome. Junto ao objeto perdido, o melancólico perdeu  parte de seu eu, entretanto reinveste a libido em parte deste eu como se este fosse o objeto, isso causa conflito psiquicamente: as acusações atribuídas a si próprio, por vezes violentas, ou de caráter radicalmente críticos  se ajustam a outra pessoa, aquele objeto supostamente amado. As auto-recriminações a si próprio, são  recriminações feitas a um objeto amado que são  deslocadas do objeto ao eu da pessoa.

Por que ocorre esse deslocamento na melancolia tornando a vida desta pessoa por vezes insuportável? A libido livre não foi deslocada para outro objeto, retornou ao eu da pessoa. De uma maneira que há uma identificação do Eu com o objeto perdido. "Assim a sombra do objeto caiu sobre o Eu do melancólico." S. Freud. Luto e melancolia (1917)  Sendo assim, as recriminações,e julgamentos atribuídos ao objeto deslocam-se ao eu, a mercê da instância julgadora, a consciência moral: como se fosse um objeto, o objeto perdido.



A consciência moral oriunda do próprio eu (até esse momento, na Obra de Freud o conceito de supra-eu não foi construído), torna-se prevalecente. A consciência moral torna o eu sem atributos favoráveis. 

Segundo Freud:
"Uma ou duas coisas podem ser diretamente inferidas no tocante às pré-condições e aos efeitos de um processo como este. Por um lado, uma forte fixação no objeto amado deve ter estado presente; por outro, em contradição a isso, a catexia objetal deve ter tido pouco poder de resistência." S. Freud. Luto e melancolia (1917)

Neste texto há uma explicação de Otto Rank sobre a contradição a fixação do melancólico ao objeto amado e  perdido:

1.     A escolha objetal na melancolia é efetuada numa base narcísica, Frente a qualquer obstáculo há um retrocesso do investimento ao eu, na forma de uma identificação narcísica. 
2.     Essa identificação se torna substituto do investimento erótico. Caso haja conflito no par amoroso, isso não é impeditivo, pois o investimento já retrocedeu ao eu. Não existindo assim par amoroso (eu-objeto), mas sim, a relação é de (eu-eu). 
3.     Há uma regressão de um tipo de escolha objetal para o narcisismo original. 
4.    Na melancolia há um retorno a uma fase primitiva: o eu do sujeito tenta incorporar a si esse objeto, fase oral ou canibalista da constituição da libido. 

A identificação na melancolia é diferente da identificação na neurose, freud diz:

Sobre as identificações na neurose:"Também nas neuroses de transferência as identificações com o objeto de modo algum são raras; na realidade, constituem um conhecido mecanismo de formação de sintomas, especialmente na histeria. Contudo, a diferença entre a identificação narcisista e a histérica pode residir no seguinte: ao passo que na primeira a catexia objetal é abandonada, na segunda persiste e manifesta sua influência, embora isso em geral esteja confinado a certas ações e inervações isoladas. Seja como for, também nas neuroses de transferência a identificação é a expressão da existência de algo em comum, que pode significar amor. A identificação narcisista é a mais antiga das duas e prepara o caminho para uma compreensão da identificação histérica, que tem sido estudada menos profundamente."S. Freud. Luto e melancolia (1917)


  • O sadismo e o ódio contra o Eu,  presentes na melancolia:

Essa depreciação e tortura a si mesmo presente na melancolia  e na neurose obsessiva (neurose de transferência) confere uma satisfação da pulsão, pela via do sadismo e do ódio a um objeto que retornou ao eu da pessoa. Esse impulso sádico é em direção ao objeto, mas como isso foi incorporado, volta-se ao eu da pessoa. (RETORNO DA PULSÃO EM DIREÇÃO AO PRÓPRIO EU. 



Na melancolia  há satisfação pela via do sadismo através da autopunição, mas também uma satisfação vivida indiretamente, pela via do ódio. Uma vingança em relação ao objeto, através da identificação. O objeto amado torna-se o objeto odiado. (REVERSÃO AO SEU OPOSTO)

Desta dupla "satisfação", Freud diz:
"Afinal de contas, a pessoa que ocasionou a desordem emocional do paciente, e na qual sua doença se centraliza, em geral se encontra em seu ambiente imediato. A catexia erótica do melancólico no tocante a seu objeto sofreu assim uma dupla vicissitude: parte dela retrocedeu à identificação, mas a outra parte, sob a influência do conflito devido à "ambivalência", foi levada de volta à etapa de sadismo que se acha mais próxima do conflito." S. Freud. Luto e melancolia (1917)

  • A natureza do suicídio presente na melancolia: 
Na melancolia há um desinvestimento objetal e um retorno desta libido no eu, pela via da identificação, como se o objeto fosse "incorporado", o que causaria no eu a hostilidade e o julgamento a si mesmo, como se fosse aquele objeto perdido. Esse suposto objeto presente no eu da pessoa, vai ganhando intensidade, resultando muitas vezes em suicídio. A pessoa se mata como se matasse o objeto. Há um abandono do Eu, em favor do objeto, o tocante é que este objeto está em si. 
  • Mania
A melancolia por vezes é cíclica: do estado melancólico ao estado de mania. Estados opostos de uma mesma "doença". O conteúdo da mania, em nada difere da melancolia,  ambas desordens lutam com o mesmo "complexo", mas que, provavelmente, na melancolia o eu sucumbe ao complexo, ao passo que no estado de  mania há um domínio. 

A alegria, a exultação ou o triunfo, que nos fornecem o modelo normal para a mania, dependem das mesmas condições econômicas. No estado melancólico há um grande dispêndio de energia libidinal no investimento no suposto objeto perdido, a mania advém justamente de libertação deste quantum de energia psíquica. 

A mania segundo Freud: "Se reunirmos essas duas indicações, encontraremos o seguinte. Na mania, o ego deve ter superado a perda do objeto (ou seu luto pela perda, ou talvez o próprio objeto), e, conseqüentemente, toda a quota de anticatexia que o penoso sofrimento da melancolia tinha atraído para si vinda do ego e "vinculado" se terá tornado disponível. Além disso, o indivíduo maníaco demonstra claramente sua liberação do objeto que causou seu sofrimento, procurando, como um homem vorazmente faminto, novas catexias objetais." S. Freud. Luto e melancolia (1917)

Por que no luto normal não há um estado posterior de mania, já que houve a perda de objeto, o investimento, e um grande dispêndio de energia para elaboração do luto?

No luto, esse dispêndio de energia gasto é justamente à elaboração, feito pouco a pouco, num objeto do mundo externo. Na melancolia  o dispêndio de energia foi num objeto sem nome, incorporado ao eu, investido e não elaborado. O trabalho na melancolia é no sentido da manutença do objeto no eu. Outro ponto importante que deve ser ressaltado é que na melancolia existem aspectos inconscientes que não são lineares, e que fornecem "satisfação". 

Luto: "Cada uma das lembranças e situações de expectativa que demonstram a ligação da libido ao objeto perdido se defrontam com o veredicto da realidade segundo o qual o objeto não mais existe; e o ego, confrontado, por assim dizer, com a questão de saber se partilhará desse destino, é persuadido, pela soma das satisfações narcisistas que deriva de estar vivo, a romper sua ligação com o objeto abolido. Talvez possamos supor que esse trabalho de rompimento seja tão lento e gradual que, na ocasião em que tiver sido concluído, o dispêndio de energia necessária a ele também se tenha dissipado." S. Freud. Luto e melancolia (1917)

Melancolia: "No trabalho da melancolia, portanto, a consciência está cônscia de uma parte que não é essencial, e nem sequer é uma parte à qual possamos atribuir o mérito de ter contribuído para o término da doença. Vemos que o ego se degrada e se enfurece contra si mesmo, e compreendemos tão pouco quanto o paciente a que é que isso pode levar e como pode modificar-se. De forma mais imediata, podemos atribuir tal função à parte inconsciente do trabalho, pois não é difícil perceber uma analogia essencial entre o trabalho da melancolia e o do luto. Do mesmo modo que o luto compele o ego a desistir do objeto, declarando-o morto e oferecendo ao ego o incentivo de continuar a viver, assim também cada luta isolada da ambivalência distende a fixação da libido ao objeto, depreciando-o, denegrindo-o e mesmo, por assim dizer, matando-o. É possível que o processo no Ics. chegue a um fim, quer após a fúria ter-se dissipado quer após o objeto ter sido abandonado como destituído de valor. Não podemos dizer qual dessas duas possibilidades é a regular ou a mais usual para levar a melancolia a um fim, nem que influência esse término exerce sobre o futuro curso do caso. O ego pode derivar daí a satisfação de saber que é o melhor dos dois, que é superior ao objeto." S. Freud. Luto e melancolia (1917)

Será?
Neste texto Freud abordou questões importantes em relação ao narcisismo e a economia psíquica, entretanto, a partir da segunda tópica, com os conceitos de pulsão de morte, Supra-eu e a ideia de dor psíquica relacionada a pulsão de morte, talvez traga uma posição mais importante sobre o luto e a melancolia. 
Este texto:  Luto e melancolia (1917) é fundamental quando pensamos a depressão, mal da contemporaneidade. 


Paula Adriana
Psicanalista

e-mail: paulaadriana.couto@gmail.com



terça-feira, 4 de novembro de 2014

Conferência XVII - O Sentido dos sintomas - S. Freud (1916-1917)



Na conferência 17, "O sentido dos sintomas", Freud afirma que para a psicanálise o sintoma é rico em sentido e está tramado com os tecido da vida e o vivenciar das pessoas que os portam. 
Na clínica, frente a cada pessoa, por vezes me pergunto: Qual o sentido disto que o sujeito construiu  para ser/estar no mundo, que por vezes lhe causa tanto mal estar?
No momento em que foi escrito. o sentido dos sintomas, o trabalho analítico consistia em analisar, interpretar, traduzir, procurar as significações cifradas, deformadas para satisfazer o desejo inconsciente recalcado sem ofender a consciência moral do sujeito. 
O psicanalista diferente do médico, não trabalha diretamente sobre o sintoma. Qual a relação psicanálise e sintoma e a  medicina e o sintoma ?
O médico descreve o sintoma e os diagnostica como doença, medica sintomas, e acredita e "faz" acreditar que cura a doença. Já para o psicanalista o sintoma é essencial, porque através dele o inconsciente está em ação. 

O dizer de Freud sobre o trabalho do psiquiatra e do psicanalista:

"Na última conferência (Psicanálise e psiquiatria), expliquei-lhes que a psiquiatria clínica atenta pouco para a forma externa do conteúdo dos sintomas individualmente considerados, que a psicanálise, entretanto, valoriza precisamente este ponto e estabeleceu, em primeiro lugar, que os sintomas têm um sentido e se relacionam com as experiências do paciente." Conferência XVII - Os Sentidos dos sintomas - S. Freud (1916-1917)

Antes de abordarmos o sentido do sintoma, acredito que seja importante conceituar o que é um sintoma na medicina e em psicanálise: Na medicina o sintoma é um sinal de alguma coisa, indica uma doença que afeta um organismo.  Em psicanálise o sintoma é um sinal e substituto de uma satisfação pulsional que não se realizou para o sujeito. Enfim, se em medicina o sintoma é sinal de doença, em psicanálise ele é "substituto" da doença, ele é metáfora dela ou, é a própria doença. 

O sintoma nos ditos do analisante parecem não ter sentido, causam certa estranheza àquele que o escuta, sendo assim, o que Freud quer dizer quando diz que o sintoma tem sentido?

De acordo com a experiência particular de cada um, as coisas são percebidas sob um ponto de vista. Como se cada um tivesse uma perspectiva particular de vivenciar determinada experiência. Dizer que o  sintoma tem um sentido, é  como se houvesse um fio condutor que ligasse os fatos, sensações, sentimentos, de acordo com a experiência de cada um. As coisas terem sentido, ou a busca por um sentido é próprio ao humano, em qualquer estrutura psíquica, portanto há sentido até no próprio delírio da psicose ou no sonho. A questão do sentido é bem diferente na neurose e psicose, em ambos há uma conexão com a vida do sujeito, mesmo quando não parece haver. 


"Os sintomas neuróticos têm, portanto, um sentido, como as parapraxias e os sonhos, e, como estes, têm uma conexão com a vida de quem os produz. ("Conferência XVII - Os Sentidos dos sintomas - S. Freud (1916-1917))

Quando pensamos em sintoma neurótico, não podemos perder de vista que o sintoma existe porque houve alguma privação libidinal na atualidade, que colocou em movimento uma introversão libidinal para o terreno da fantasia(modo de  satisfação pulsional, sem que ocorra o teste da realidade). Sempre há privação, portanto o sintoma é próprio do sujeito neurótico.

Freud escolhe a neurose obsessiva para exemplificar o sentido do sintoma. Será que essa escolha foi aleatória, ou existe algo peculiar a neurose obsessiva em relação ao sentido dos sintomas?


"Essa neurose, conhecida como neurose obsessiva, não é tão comum como a universalmente conhecida histeria. Não é, se assim posso expressar-me, tão indiscretamente ruidosa; comporta-se mais como assunto particular do paciente, prescinde quase que completamente dos fenômenos somáticos e cria todos os sintomas da esfera mental. A neurose obsessiva e a histeria são as formas de doenças neuróticas em cujo estudo baseou-se inicialmente a psicanálise, e em cujo tratamento, também, nossa terapia realiza seus triunfos. Mas a neurose obsessiva, na qual o enigmático salto do mental para o físico não desempenha nenhum papel, se nos tornou, através dos esforços da psicanálise, realmente mais compreensível e conhecida do que a histeria, e temos constatado que ela apresenta muito mais flagrantemente determinadas características extremas da natureza da neurose." (Conferência XVII - Os Sentidos dos sintomas - S. Freud (1916-1917))


A neurótico obsessivo  ocupa-se de pensamentos em que realmente não está interessado. Ele tem noção de que há impulsos e ações nele que lhe parecem muito estranhos. Esses atos não lhe dão satisfações, entretanto não consegue parar de fazê-lo.


Essas obsessões( ideias fixas, preocupação contínua) por vezes não tem significação, ou ainda são vividos como algo sem importância para o sujeito. Esses pensamentos ou atos apresentam um tom de absurdo, que por vezes tomam a vida do sujeito, pois promovem uma intensa atividade psíquica e que desgastam o sujeito. 

Por outro lado o neurótico obsessivo tem pensamentos assustadores, com certa crueldade que o tenta por vezes a cometer crimes, na mesma medida o sujeito se resguarda de executá-los recorrendo a proibições, renúncias, e restrições em sua liberdade. Enfim o próprio sujeito a partir de proibições e restrições a sua liberdade defende-se de seus próprios pensamentos de crueldade. O sujeito cria rituais, atividades obrigatórias, que se tornam tarefas fatigantes e que não consegue se desvencilhar. 



Por que ou para que alguém "criaria" em si, atos tão intensos e absurdos que ao mesmo tempo tão desimportantes para viver a vida,  que toma grande parte da sua vida e por vezes restringindo sua liberdade? 


O caminho mais fácil, mas também ingênuo,  seria mandar o sujeito parar de fazer aquele ato. Ou explicar que aquele ato faz mal a ele. Ou ainda dizer ao sujeito: "Olha o que grande mal você faz a si mesmo."

Freud diz: 
"Ele(neurótico obsessivo) próprio gostaria de fazê-lo, pois está perfeitamente lúcido, compartilha da opinião dos senhores acerca de seus sintomas neuróticos, e até mesmo expressa-a espontaneamente aos senhores. Só que ele próprio não consegue ajudar-se a si mesmo. O que é posto em ação, em uma neurose obsessiva, é sustentado por uma energia com a qual provavelmente não encontramos nada comparável na vida mental normal. Existe uma coisa apenas, que ele pode fazer: realizar deslocamentos, trocas, pode substituir uma ideia absurda por outra um pouco mais atenuada, em vez de um cerimonial pode realizar um outro. Pode deslocar a obsessão, mas não removê-la. A possibilidade de deslocar qualquer sintoma para algo muito distante de sua conformação original é uma das principais características desta doença."(Conferência XVII - Os Sentidos dos sintomas - S. Freud (1916-1917))



Qual a direção de trabalho analítico com a neurose obsessiva, já que o sujeito sabe do seu mal estar, sabe até como poderia resolve-lo? Entretanto não consegue fazê-lo, ao contrário seu sintoma o atormenta. 
Por vezes é  perceptível ao neurótico obsessivo sua contradição (Incoerência entre .atos ou ditos sucessivos)  intensa e visível. Junto a isso, há no  neurótico obsessivo  uma dúvida e indecisão intensa, que faz com que o sujeito permaneça no mesmo lugar. tudo isso causa a restrição de sua liberdade e a perpetuação  de  seus sintomas.  




"Ao mesmo tempo, o neurótico obsessivo inicia seus empreendimentos com uma disposição de grande energia, freqüentemente é muito voluntarioso e, via de regra, tem dotes intelectuais acima da média. Geralmente atingiu um nível de desenvolvimento ético satisfatoriamente elevado; mostra-se super consciencioso, e tem uma correção fora do comum em seu comportamento. Os senhores podem imaginar que não é pouco o trabalho que se requer para se poder penetrar, por pouco que seja, nessa miscelânea de traços de caráter e de sintomas. E, de início, não pretendemos nada mais do que compreender alguns desses sintomas e conseguir interpretá-los."

Freud se utiliza de dois exemplos para demonstrar a configuração da neurose obsessiva e a possibilidade de trabalho, não vou utilizá-los neste texto. Vale a pena lê-lo, porque nos dá uma interessante visão do sentido dos sintomas e o trabalho do psicanalista. 


É importante ressaltar que após a escrita dessas conferências, muitas mudanças vieram na teoria. Freud escreve a segunda tópica, onde existe uma nova configuração de aparelho psíquico mais complexa, a chamada segunda tópica (eu/supereu/isso), além disso Freud produziu uma modificação na sua teoria das pulsões inserindo a pulsão de morte. Essas novas configurações trouxeram uma nova luz a questão do sintoma. 
Referencias:
Ocariz, Maria Cristina. O sintoma e a clínica psicanalítica: O curável e o que não tem cura. Via lettera editora. São Paulo. 2003.
Safouan, Moustapha. Seminário: Angústia,sintoma,inibição. Campinas SP. 1989.





terça-feira, 28 de outubro de 2014

Proposta de grupo de estudos

Grupo de Estudos:
A constituição da sexualidade  -  Sigmund Freud
Amor & Desejo

“ Tudo é mistério no amor;
Suas flechas, sua aljava, sua infância;
Não é obra de um dia esgotar essa ciência.
Portanto não pretendo aqui tudo explicar;
Quero apenas dizer, a minha maneira... ”
Jean de La Fontaine
L´Amour el la folie


Quando nos debruçamos sobre o  desenvolvimento psicossexual humano  abordamos a entrada do sujeito na linguagem/cultura. A via dessa entrada é o amor e o desejo. Algo que nos  impulsionará ou não sobre as coisas do mundo: escolhas, encontros e desencontros. 
Somos constituídos a partir de um encontro com outro (mãe ou cuidador), calcado por diversos desencontros com este mesmo outro.  


Textos:
Conferência XXII             Revisão da teoria dos Sonhos  (1932-1936)
Sobre o narcisismo (1914)
O sentido dos sintomas
A vida sexual dos seres humanos
As pulsões e suas vicissitudes (1917)
Mais além do princípio do prazer (1920)
A organização genital infantil (1923)
O Ego e o Id (1923)
A dissolução do complexo de Édipo (1924)
Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos (1925)
Fetichismo (1927)
Feminilidade (1932)
Comentadores:
O pai e sua função em psicanálise (1991)  Joel Dor
O que quer uma mulher? (1987)  Serge André
O amor é o crime perfeito (2001) Jean Claude Lavie
Abandonarás teu pai e tua mãe (2000) Philippe Julien
Constituição do sujeito e estrutura familiar (2003) Michele Roman Faria


Paula Adriana Vieira das Neves Couto

Praticante de psicanálise, especialização em psicanálise e linguagem:  uma Outra psicopatologia PUC – SP e participação em diversas atividades voltadas a psicanálise.

A quem se destina: estudantes de psicologia, psicanalistas, profissionais de educação  e interessados no tema.
Dia e hora:                                                   
Segunda Feira -   19:00 – 20:00 ou;
Sábado– 10:00 – 11:00

Investimento: R$ 30,00 por encontro. O pagamento pode ser feito no próprio dia.
Inscrições: Confirme sua participação através do e-mail: paulaadriana.couto@gmail.com ou paulaadriana.couto@bol.com.br

Local:  Avenida Voluntários da Pátria, 2525 – cj 75 Santana – São Paulo SP – Próx. ao metro Santana
Telefone: (11)3715-8494