sexta-feira, 28 de março de 2014

A cigana leu o meu destino.

Ontem estava voltando do trabalho quando recebi um panfleto que dizia:"Nós trazemos seu amor de volta com discrição e rapidez."
 
Essa frase me fez questionar sobre algumas coisas: primeiro se a pessoa  amada se foi,  para que tentar  trazê-la de volta, por algo sobrenatural ? A pessoa quando se vai está implícito,  que ela não quer mais, e caso volte por algo sobrenatural, não será pela sua vontade será pelo suposto poder de alguma divindade.  Por outro lado, vai que a pessoa volte, você jamais acreditará que foi por livre espontânea vontade. No mínimo a dúvida se manterá: será que ela realmente me ama? Ou será que foi a tal divindade que a trouxe de volta? 

A segunda coisa que me fez pensar foi sobre o desespero de alguém quando  procura algo sobrenatural para trazer de volta a pessoa amada. Algumas pessoas falam que é falta de amor próprio, outras dizem que é a solidão, que faz alguém se desesperar desta maneira. Outras ainda, dizem que se trata da dificuldade de ouvir um não.

Eu particularmente acredito que a maior dificuldade seja aceitar o não. Talvez ao invés de falta de amor próprio seja excesso de amor próprio, e excesso de expectativas: Como fulano me deixou? Ele me fez tantas promessas! Eu tinha tantas expectativas!Como colocamos nossas expectativas nas mãos de um outro? Nossas expectativas são nossas. Cada um faz o que quer. 

O amor, muitas vezes traz a ilusão da simbiose entre duas partes, que pensam e agem juntas, a ilusão da completude. Entretanto as pessoas ficam  o tempo que elas quiserem ao nosso lado, não temos controle disso. É um risco nos relacionar, mas um risco muito bom que vale a pena!!!

As pessoas podem nos deixar, e isso não significa que deixamos de ter valor, ou de que nunca mais nos relacionaremos. Apenas uma pessoa se foi...Como dizem: a fila andou.

O nosso valor não deveria estar relacionado as outras pessoas, ao nosso desejo de ser reconhecido: "só tenho valor se alguém me der valor." Geralmente as pessoas estão voltadas para si, e dão valor ao outro a partir das próprias expectativas. Enfim o reconhecimento que vem de fora, na maioria das vezes é um engano.

Quando alguém se vai é triste...choramos, nos sentimos sós, mas acredito que com o passar do tempo a saída é arriscar-se novamente, tentar reinventar-se ...Afinal ouvir NÃO faz parte...

 






   

terça-feira, 11 de março de 2014

A simplicidade e a complexidade do amor...


Cada sujeito ama, a partir de suas possibilidades.

Existem sujeitos que apesar de desejarem um amor, não podem ou não conseguem amar, são tomados pelo ódio, geralmente negado, pela impossibilidade do surgimento de um príncipe encantado que nunca vai surgir. Vivem “fugindo da vida”. Dificilmente sentem prazer e, dessa forma, vivem uma incessante busca de um ideal inatingível: um ser perfeito, sem falhas. Qualquer diferença deste ideal, advém a frustração e  se decepcionam, reforçando dia após dia sua desistência em  viver uma nova relação amoroso.   

Algumas pessoas frente ao amor, se posicionam exigindo: solicitam carinho, atenção, o olhar, voz e o corpo do companheiro. Como se pudessem sugar tudo o que o par romântico tem a oferecer e aquilo que ele não tem. O companheiro frustrado, incapaz de preencher esse vazio inesgotável, desiste de dar o mínimo que tem. 

Há aqueles que em nome do amor se destroem. através do ciúme exacerbado, como se o seu par amoroso fosse parte dela. Violenta o outro e se violenta em nome de um suposto amor.  

A aqueles sedentos por amor por si mesmos, se submetem a toda e qualquer tipo de violência, pois é aquilo que supostamente merece receber por amar. Desconhecem que podem ser amadas, pois não amam nem a si próprias. 

Existem pessoas ainda que amam e respeitam  seu parceiro, o  admira. Há uma percepção clara do outro como objeto do prazer, mas também como alguém que tem vida própria. Tem-se  cumplicidade, companheirismo e confiança. A sexualidade é real e não é movida pela angústia e, dessa forma, o prazer é mais intenso, proporcionando o relaxamento, satisfação momentânea e a consciência da união.

Finalmente, cada pessoa tem uma forma peculiar de sentir-se amado e amar que advém das nossas primeiras escolhas e investimentos. Entretanto,  estamos inseridos numa cultura que ainda   coloca o amor como algo perfeito e em nome deste suposto sentimento, tudo é perdoado. 

E nesta aura de busca pelo ideal de perfeição. Como viver um amor do mundo real?  Na rotina do dia a dia, com seus obstáculos, acertos e erros? Como transformar as coisas simples do amor em grandes realizações?  

O princípio de prazer e princípio de realidade - textos 1900 - 1911 Freud.

O PRINCÍPIO DO PRAZER E PRINCÍPIO DE REALIDADE - 


Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico: 1911
A interpretação dos sonhos - 1900


A apreensão da realidade pelo sujeito é sempre particular, vemos o mundo sempre sob a nossa ótica. No texto formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico, Freud diz que o objetivo da neurose é alienar o sujeito da realidade, pois esta  é por vezes  insuportável se tomada ao pé da letra. O trabalho na neurose é torná-la  fragmentada. A realidade tem estrutura de ficção. 

O psiquismo busca sempre manter certo equilíbrio no organismo ou seja manter a tensão sempre baixa. Essa manutenção fica a cargo do princípio do prazer-desprazer. O Princípio do prazer  mantém esse equilíbrio, através da diminuição da tensão entre os meios interno e externo. São descargas motoras que ocorrem a medida que advém o aumento de tensão. 

Desde o nascimento, numa medida de proteção, o psiquismo afasta-se de qualquer evento que possa despertar desprazer, além disso, o próprio organismo cria artifícios para manter a tensão sob controle: quando o recém nascido tem fome, há um aumento de tensão, o próprio organismo alucina um objeto que traria ilusão de satisfação.  Ao longo do tempo, essa "miragem" causa uma ausência de satisfação e um desapontamento. Levando o sujeito ao abandono desta tentativa de satisfação. Geralmente esse tipo de "satisfação" perdura no sujeito. 

O aparelho psíquico do bebê a partir dessas "alucinações de satisfações"  constrói marcas, que tem por objetivo evitar o desgaste de tensão. Por ser algo mítico, essas marcas de prazer trariam a satisfação, a ausência de desprazer.  Uma trilha de prazer-desprazer.

O novo torna-se temerário. Na vida percebemos isso, quando sempre buscamos o mesmo, a semelhança, algo que nos tranquiliza, uma calmaria. Contraditório, a medida que investimos na novidade, nos objetos externos, mas será que nossa busca é sempre calcada na tentativa do reencontro?  

"O processo primário esforça-se por promover uma descarga de excitação assim acumulada, passa a estabelecer uma identidade perceptiva. O processo secundário, contudo abandona essa intenção e adota outra em seu lugar - o estabelecimento de uma identidade de "pensamento"."  O pensar como um todo não passa de uma via indireta que vai da lembrança da satisfação(primeira meta) à um investimento para uma lembrança idêntica, que se atinge através de experiências motoras.  Um desvio de caminho (metáfora) como uma maneira de dirimir a tensão. (Interpretação dos sonhos-1900)

A princípio, o investimento em objetos da realidade é parcial,  pois parte das pulsões investem auto-eroticamente buscando satisfação no próprio corpo.Do auto-erotismo à situação de busca de objeto (identificações).O próprio investimentos em objetos externos está a serviço do princípio do prazer, pois ao investir em objetos resiste-se ao isso. 

A medida que a criança  se constitui,  sua relação com o mundo externo aumenta, pois ela passa a investir em objetos de fora dela,  prepara-se paulatinamente a enfrentar as intempéries da realidade, mas sem se perder daquelas primeiras marcas(trilhamento mnêmico), pois o investimento no mundo externo é calcado nestas primeiras marcas. Calca-se no antigo, almejando o novo.

1. Busca no exterior aquilo que há no interior.(Função da atenção),  2. tenta assentar essas impressões, àquilo que já estava inscrito (notação/memória), 3. Ação - conduz a descarga motora, daquilo que causa um aumento da tensão (estranho).  

Surgindo então o Princípio de realidade, o ato do pensamento. A criação de um tempo de espera. Torna-se possível  tolerar o aumento da tensão e o adiamento da descarga. Enfim o princípio do prazer e princípio de realidade se articulam, sendo que o segundo existe para proteger o primeiro. Ou seja,  o princípio de prazer é o que vigora no aparelho psíquico e neste processo, o que está em jogo é poupar o consumo de energia. Por conta disso o sujeito luta para manter suas fontes de prazer a disposição. Existe uma grande dificuldade de renunciar à esse prazer-desprazer.

O fantasiar está subordinado ao princípio de prazer, pois inibe a liberação do desprazer. Neste raciocínio estão o brincar,e o devanear no adulto.    

Quando fantasiamos temos acessos a todos os personagens, construímos a história calcada no nosso prazer. Ao invés do investimento em objetos reais, buscamos a imagem ao nosso bel-prazer. A priori uma satisfação garantida.

A substituição do princípio de prazer pelo princípio de realidade não implica na troca ou transformação de um princípio pelo outro, mas sim, um plus na  proteção do aparelho psíquico. Algumas atividades da realidade, de alguma forma articulam os dois princípios: prazer-desprazer e realidade: educação, ciência, religião e a  arte.

A verdade tem estrutura de ficção - não existe uma verdade verdadeira, pois criamos nossas verdades a partir das coordenadas de prazer (percepção), dos nossos sintomas que nos faz perceber a realidade de maneira singular e do nosso corpo.  







terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Enigma - A constituição do sujeito feminino em Freud.

Quando lemos os textos de Freud sobre a constituição do sujeito feminino percebemos um  árduo trabalho para menina: repleta de recortes, idas e vindas.

O primado fálico, a convicção presente nas crianças de que todos os seres tem pênis, coloca o feminino num mal estar estrutural quando ela descobre que não tem o pênis. Essa diferença é vista pela menina como déficit. Algo sai da ordem e como o sujeito feminino responde a esse mal estar, é uma questão.

O Complexo de Édipo no menino surge como uma evolução na fase fálica e sua dissolução advém de sucessivas ameaças da castração e a visão do corpo feminino sem o pênis (falo). Do Complexo de Édipo herda-se o supereu. 

Na menina: " O Complexo de castração prepara para o Complexo de Édipo, em vez de destruí-lo, a menina é forçada a abandonar a ligação com a mãe através de sua inveja do pênis e entra no Édipo como refúgio."

Na menina durante o Complexo de Édipo se operará duas mudanças na sua constituição sexual:
de Zona erógena: do clitóris à vagina; 
e de Objeto amoroso: da mãe ao pai. 

A figura materna terá uma grande importância nesta estruturação, pois para a menina a mãe é a última a ser percebida como destituída de pênis. E essa constatação faz a menina perceber, além da falta de pênis na mãe, sua própria falta. Constatando a castração entrando assim no Complexo de Édipo.

Essa constatação não se dá de maneira imediata, a menina ao perceber a mãe sem pênis, acredita que isso foi um castigo porque a mãe deve ter feito algo muito grave para ter recebido tal castigo. E dessas formulações a menina constata que há seres que tem pênis e há seres que não tem pênis. Entrando na dialética do Ter ou Não ter.

Na menina a castração é percebida como consumada - ela não tem. E essa constatação não é tolerada sem alguma tentativa de compensação.

"Seu Complexo de Édipo em um desejo, mantido por muito tempo, de receber do pai um bebê como presente - de dar-lhe um filho."

Para a menina, a mãe é o primeiro objeto de amor, neste primeiro momento o pai é um rival. 
Desta primeira relação há um deslocamento da mãe ao pai. Entretanto a instancia paterna não faz desaparecer o primeiro Outro(materno). Essa relação mãe/menina é conflitante e ambígua permeada pelo amor e ódio

"Uma poderosa tendência à agressividade está sempre presente ao lado de um amor intenso e, quanto mais profundamente uma criança ama seu objeto, mais sensível se torna aos desapontamentos e as frustrações provenientes desse objeto e no final, o amor deve sucumbir a hostilidade acumulada." 

Para que a menina possa se endereçar a um homem ela precisará fazer uma ruptura em relação a figura materna, por outro lado ela deverá se identificar  com essa figura "odiosa" a fim de construir sua feminilidade.

O processo identificatório ocorre em duas vertentes: 

No período pré edipiano: a mãe como primeiro objeto de amor
Complexo de Édipo: A mãe como rival a ser eliminada, para que a menina possa ocupar-lhe o lugar junto ao pai. 

O complexo de Édipo na menina é conflitante. Freud propõe três saídas possíveis do Complexo de Édipo:

A inibição sexual e/ou neurose: Atitude de desvalorização da menina em relação a mãe, a medida que constata sua falta de pênis - seu clitóris perde o valor diante da impossibilidade de ostenta-lo como objeto fálico, na mesma proporção que o pênis ocupa para o menino. levando a menina a uma inibição da atividade sexual.

Complexo de masculinidade: A menina recusa-se a reconhecer a falta de pênis materno e consequentemente sua própria falta de pênis, obrigando-se a se comportar como se fosse um homem. Guarda consigo a expectativa de um dia vir a ter um pênis, as consequências disso: Sentimento de inferioridade, ciúme feminino e um afrouxamento da ligação da mãe enquanto objeto.

Feminilidade: A mulher procede a um deslizamento simbólico: abre mãe e se dirige ao pai, figura a qual endereçará seu desejo por um filho, como representante de estabelecimento de um desejo feminino por excelência. 

Essa saída abordada por Freud como sendo das três a mais interessante, é uma saída que tem também o falo como referência, consequentemente uma tentativa de se colocar sob a inscrição masculina. 


Será que é possível pensar outra saída para a menina, além do falo?

Esse mal estar estrutural traz consequências ao feminino?

Quando pensamos as estruturas psíquicas: neurose-psicose-perversão, como cada uma lida com essa falta?

No caso da menina há uma dissolução parcial do complexo edípico, sendo assim quais as consequências na formação do Supereu, já que este é herdeiro do Complexo de Édipo? 










   

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Feminilidade - Freud 1933

FEMINILIDADE – (1933)

Em Feminilidade, texto que marcaria a segunda etapa da segunda versão do Édipo, a
diferenciação entre os sexos é aprofundada mediante a constatação de que a menina
teria uma fase “pré-edipiana”, de intenso apego à mãe, cujo encerramento Freud considera deva ser explicado.

Em “A dissolução do complexo de Édipo”, o vínculo da menina à mãe é concebido como algo simples, derivado da constatação da “castração”,ou seja, da ausência de pênis. Essa é a principal diferença entre os textos “A dissolução…” e “Feminilidade”.

 (Lembremos que Freud não interpreta a fantasia de castração; ele a entende
literalmente. 

A psicanálise contemporânea — através de Jacques Lacan — interpretará
a fantasia de castração como metáfora de “separação”, enquanto efeito da aquisição da
linguagem, que situa a criança numa posição bem diferente em relação à anterior. A
aquisição da linguagem leva a criança a aceder à posição de sujeito. Anteriormente à
aquisição de linguagem, a criança ocupava a posição de objeto).

 O fator determinante da construção da identidade sexual é a identificação às
expectativas inconscientes dos adultos afetivamente ligados à criança.

A partir da fase fálica, quando o pênis e o clitoris se tornam as partes do corpo que
mais chamam a atenção da criança, é que se instala a diferença. Desta vez, invertendo a
descrição feita no texto anterior (A dissolução…) Freud considera que o Édipo feminino é mais complicado, pois a menina precisará efetuar duas mudanças: mudar
de objeto (mãe para pai) e de centro corporal de prazer (clitóris para vagina).
Para entender como a menina muda de modelo de objeto de desejo, Freud descreve
primeiramente as decepções da menina com a figura materna:
Uma das fantasias da menina seria a de acreditar ter sido insuficientemente
amamentada, porque a mãe teria guardado seu leite para o bebê seguinte.
Suplementarmente, a menina hostilizaria a mãe porque esta a proíbe de explorar seu
próprio corpo, impede as práticas auto-eróticas. Enfim, a educação, as restrições em
geral, “… toda intervenção desse tipo na liberdade da criança deve provocar como reação
uma inclinação à rebeldia e à agressividade“.

Porém Freud não pode deixar de constatar o óbvio, ou seja, que essas queixas também
podem ser feitas pelo menino, que sofre as mesmas restrições.

O fator específico então – essa é a resposta de Freud – é que a menina atribuiria à mãe a responsabilidade (culpa) por não ter pênis. “…não perdoam por terem sido, desse  modo, colocadas em desvantagem“.

O que resultaria na “inveja do pênis”, sentimento que considera universal nas crianças
de sexo feminino. Em consequência, segundo Freud, três alternativas se colocam
para a menina: “…uma conduz à inibição sexual ou neurose, outra à modificação do
caráter no sentido de um complexo de masculinidade, a terceira, finalmente, à
feminilidade normal“.

Esta última alternativa, como as outras, resultaria da “inveja do pênis” mas,
diferentemente das duas primeiras, se expressa pelo desejo de maternidade. O bebê,
então, indenizaria a mulher pela ausência de pênis. Assim a menina ingressaria no
Édipo, aceitando a “castração”. O mesmo motivo que faria com que o menino
“encerrasse” seu Édipo daria início ao da menina. (Freud ainda entende o Édipo como
a relação da criança com os adultos, e não como o momento em que o desejo é
estruturado).

A criança se insere nesse mundo agora habitado pelos gêneros através dos respectivos
modelos de identificação e de relação de objeto (ser e ter). Modelos aliás nunca
absolutizados (daí a latência homossexual na heterossexualidade e a latência
heterossexual na homossexualidade e, além dessa latência, os conflitos
latentes/manifestos, ditos neuróticos/perversos, que expressam a dificuldade em
aceitar o desejo, ou seja, a falta, em sua expressão sexual, isto é, na expressão da
relação desejante com o outro).
O processo de construção da identidade sexual, uma vez diferenciado do primeiro
momento, implica na revogação da crença fálica e culminará com a aceitação
do não dirigido ao próprio desejo… . Ou seja, a restrição ao desejo de não desejar (ter a
propriedade absoluta do objeto de desejo).

A esse processo Freud chamou de formação do superego, e Lacan de internalização da
lei, metáfora paterna, Nome-do-Pai.

Esse processo teria duas etapas: primeiramente, a aceitação da autoridade apenas
quando presente; depois, a internalização da regra (a aceitação do não auto-dirigido), que prescinde da presença da autoridade.

Sexualidade feminina - Freud 1931

SEXUALIDADE FEMININA - 1931

A sexualidade feminina é marcada por modificações que acontecem no período do Complexo de Édipo(incluindo neste complexo, o período pré-edipiano): modificação de objeto, da mãe ao pai e modificação da zona genital, do clitóris a vagina.

O primeiro objeto de amor para menina é a mãe (período pré-edipiano). Com ela tem uma relação intensa, apaixonada e repleta de nuances. 

Em um determinado momento, a menina desloca deste amor intenso e apaixonado pela mãe, ao pai dando a impressão da mesma intensidade, do mesmo colorido.

O clitóris é a primeira zona genital nas meninas, comparada ao pênis nos meninos, entretanto em determinado momento essa zona genital é substituída pela vagina. Sendo que até a puberdade a vagina é virtualmente inexistente, não produzindo sensações.

“Nas mulheres, portanto, as principais ocorrências genitais da infância devem ocorrer em relação ao clitóris. Sua vida sexual é regularmente dividida em duas fases, a primeira das quais possui um caráter masculino, ao passo que apenas a segunda é especificamente feminina.”

O período pré-edipiano na menina é longo e importante, de uma ligação intensa com a mãe, quando o pai para menina não é nada além de um rival causador de problemas.

“É apenas na criança do sexo masculino que encontramos a fatídica combinação de amor por um dos pais e, simultaneamente, ódio pelo outro, como rival.  No caso dele, é a descoberta da possibilidade de castração, tal como provada pela visão dos órgãos genitais femininos, que impõe ao menino a transformação de seu complexo de Édipo e conduz à criação de seu superego, iniciando assim todos os processos que se destinam a fazer o indivíduo encontrar lugar na comunidade cultural. Após o agente paterno ter sido internalizado e ter-se tornado um superego, a tarefa seguinte consiste em desligar este último das figuras de quem originalmente constituiu o representante psíquico. Nesse notável curso de desenvolvimento, é precisamente o interesse narcísico do menino por seus órgãos genitais — seu interesse em preservar o pênis — que é transformado numa restrição de sua sexualidade infantil.”

A menina entra no Complexo de Édipo pela castração, quando constata a diferença entre o órgão genital masculino e o dela, aparecendo assim a inveja do pênis, e por conta desta constatação rebela-se contra esse estado de coisas indesejável. Responsabilizando a mãe por isso. 

“A intensa ligação da menina à mãe é fortemente ambivalente, sendo precisamente em conseqüência dessa ambivalência que (com a assistência dos outros fatores que aduzimos) sua ligação se afasta à força da mãe mais uma vez, isto é, em conseqüência de uma característica geral da sexualidade infantil.”

Dessa atitude  abrem-se três linhas de desenvolvimento:

1.    A menina, assustada pela comparação com os meninos, cresce insatisfeita com seu clitóris, abandona sua atividade fálica e, com ela, sua sexualidade em geral, bem como boa parte de sua masculinidade em outros campos.

2.    A segunda linha a leva a se aferrar com desafiadora auto-afirmatividade à sua masculinidade ameaçada. Até uma idade inacreditavelmente tardia, aferra-se à esperança de conseguir um pênis em alguma ocasião. Essa esperança se torna o objetivo de sua vida e a fantasia de ser um homem, apesar de tudo.

3.    O terceiro caminho, a menina atingirá a atitude feminina normal final, em que toma o pai como objeto, encontrando assim o caminho para a forma feminina do complexo de Édipo.

‘O que uma menina exige da mãe? Qual é a natureza de seus objetivos sexuais durante a época da ligação exclusiva à mãe?’

A menina ama e quer ser amada pela mãe. (ativa e passiva)Libidinalmente tem pela mãe objetivos passivos e ativos simultaneamente. 

“As primeiras experiências sexuais e sexualmente coloridas que uma criança tem em relação à mãe são, naturalmente, de caráter passivo. Ela é amamentada, alimentada, limpa e vestida por esta última, e ensinada a desempenhar todas as suas funções. Uma parte de sua libido continua aferrando-se a essas experiências e desfruta das satisfações e elas relacionadas: outra parte, porém, esforça-se por transformá-las em atividade. Em primeiro lugar, a amamentação ao seio dá lugar ao sugamento ativo. Quanto às outras experiências, a criança contenta-se quer em se tornar auto-suficiente — isto é, executando com ela própria com sucesso o que até então fora feito para ela —, quer em repetir suas experiências passivas, sob forma ativa, no brinquedo, ou, então, transforma realmente a mãe em objeto e comporta-se para com ela como sujeito ativo.”

Quando a menina entra no Complexo de Édipo ocorre um declínio da atividade para a passividade. A transição para o objeto paterno é realizada com o auxílio das tendências passivas. O caminho para o desenvolvimento da feminilidade está agora aberto à menina.

“A psicanálise nos ensina a lidar com uma libido única, a qual, é verdade, possui objetivos (isto é, modalidades de satisfação) tanto ativos quanto passivos. Essa antítese e, acima de tudo, a existência de tendências libidinais com objetivos passivos, contém em si mesma o restante de nosso problema.”


Surgem perguntas...

Nas leituras dos textos de Freud do feminino, surgem as primeiras perguntas:

No texto dissolução do Complexo de Édipo, Freud faz a seguinte afirmação: "A menina gosta de considerar-se como aquilo que seu pai ama acima de tudo o mais, porém chega a ocasião em que tem de sofrer parte dele uma dura punição e é atirada para fora de seu paraíso ingênuo."

Como é possível pensar essa afirmação? 

No que o desejo e amor se articulam?

Em relação ao desejo e amor e os movimentos pulsionais, Freud fala de bissexualidade no sentido: atividade/passividade

Ser amada - é algo a principio da passividade. Claro que para ser passiva há uma grande atividade.  Amar é da atividade e deixar-se amar é da passividade. 

Ser amada pelo pai é muito caro para menina, principalmente em relação ao desejo, como é possível pensar isso? 

O que Freud quer dizer quando diz que a mulher é um enigma?

Freud afirma que todas as experiências infantis: movimento pulsional, investimentos e perdas tem um efeito no sujeito neurótico, sendo assim é possível pensar nestes efeitos na mulher?

Falo é diferente de pênis, isso traz consequências na constituição masculina?  Porque afinal ele tem o pênis e não o falo. 


Diferente do homem, a mulher não tem um significante que a defina como mulher, quais as consequências disso?

O que será que é esse Complexo de masculinidade que Freud fala, na saída do Complexo de Édipo da menina?

Algo também que não ficou claro, diz respeito a saída da menina do Complexo de Édipo, já que a menina entra no Édipo pela castração...Em que momento ela sai do CE, já que Freud fala que a saída do Édipo é determinada pela hereditariedade.