quarta-feira, 2 de março de 2016

Minha Leitura do filme: Madame Bovary (1991)


Nesta semana assisti ao filme: “Madame Bovary” (1991), adaptação da clássica obra literária de Gustave Flaubert. Filme excelente que aborda a singularidade dos investimentos amorosos. Muitas vezes a última coisa que se busca numa relação amorosa ou nos investimentos amorosos  é o amor. 

Madame Bovary retrata essa questão de maneira exemplar.
Resolvi também escrever sobre este filme porque o achei extremamente atual e emblemático. Hoje em dia vivemos um tempo onde paira uma insatisfação geral.  As relações estão  cada dia mais superficiais e “interesseiras” e  parece que  Madame Bovary se relaciona desta maneira,  com todos que a cerca.

Outro ponto que me intrigou bastante neste filme foi justamente o fato de Emma não se perguntar sobre o que deseja ou não deseja. Ela segue o fluxo, sem responsabilidade,  a fim de conquistar algo que talvez nem queira de fato.  Desloca-se de objeto em objeto, sem algo que realmente chame sua atenção. 

O marido de Emma por sua vez parece adormecido, na posição de amado, “cego de amor". Seus gestos giram em torno de  Tentar realizar o que supõe que Emma deseja. Qual mulher esse homem ama? A quem Emma ama? O que desejam?

Este filme ilustra um viés das relações amorosas  que quase ninguém deseja ver, mas que estão ai nas relações:
  • Nem sempre o que pedimos é o que realmente queremos, aliás, geralmente pedimos o avesso daquilo que queremos.
  • Por trás de nossos apelos existem tantos outros pedidos, que não são claros nem mesmo para cada um de nós. 
  • Nossas insatisfações são inerentes a nossa humanidade, não existindo um objeto (amoroso ou não) que nos satisfaça completamente. 

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“MADAME BOVARY” (1991)








Emma é uma jovem romântica e sonhadora, que vive no interior da França no Século 19. Um dia o Dr. Charles Bovary vai à fazenda da família para cuidar do pai de Emma. À medida que o médico cuida do pai interessa-se pela jovem, e Emma parece que vê neste homem uma oportunidade de tirá-la do tédio ao qual se encontra. Ao pai de Emma uma oportunidade de casamento para a filha e assim ocorre, Emma  casa-se com Charles Bovary. Interessante como  cada um deseja neste casamento coisa diferente: o pai um destino para a filha. Charles Bovary deseja  amar e ser amado e Emma deseja sanar suas insatisfações advindas de suas idealizações.

Dr. Charles Bovary  é um médico de província, sem grandes ambições,  mas cheio de boas intenções. Como satisfazer uma mulher insatisfeita? Como supor o querer da outra pessoa?  Emma descobre que, apesar da dedicação do marido, o casamento não é como havia idealizado. A impressão que dá é que quanto mais o marido tenta satisfazer as vontades de Emma, mais ela se afasta dele.

Enquanto o marido busca no casamento ser amado por essa mulher. Emma parece que se desencontrou a partir do casamento. Emma queria ser retirada do tédio de ser mulher, numa época onde à elas cabia apenas satisfazer os desejos do marido, cuidar dos afazeres domésticos e dos filhos quando viessem. Emma não sabia o que queria, mas sabia que não queria estar naquele lugar, cumprindo as tarefas que lhe eram reservadas: cuidar do marido e filha, aliás, com a menina mantinha uma relação de desprezo. Emma na realidade parecia sonhar em conquistar a evidência social através do marido médico para compensar uma existência medíocre.

O casal é convidado a participar de um baile na província em que residem. Ali naquele baile Emma percebe os olhares de outros homens a ela. Este baile deflagra nesta mulher a ambição de estar em outra posição, mais rica e poderosa, mas também de ser desejada por outros homens. Ela descobre que pode ir além e encontrar a vida de brilho que idealizou. Só que Emma conquistaria suas ambições através do crescimento profissional e da visibilidade do marido enquanto médico, como também através da sedução de outros homens. Engano de Emma: como transmitir suas ambições ao marido simples, medíocre e satisfeito de sua posição?

Será que Emma realmente se interessava por outros homens? Ou seduzia e era seduzida para sentir-se especial ou desejada? Amada já era pelo marido e isso só a fazia despreza-lo. Quanto mais insatisfeita, mais investia nos objetos que surgiam (homens, dinheiro, roupas), mais se sentia insatisfeita e mais acumulava dividas.

A personagem através de suas buscas ambiciosas em relação ao marido,  e aventuras amorosas perde progressivamente o sentido da realidade. Sua perdição culmina quando não tem mais controle de sua vida e de suas dívidas alimentadas por um agiota inescrupuloso. Emma atira-se num pote de arsênico e agoniza até a morte.

O termo bovarismo entrou para o dicionário utilizado para designar “a tendência que certos indivíduos têm de fugir da realidade e imaginar para si uma personalidade e condições de vida que não possuem.”

Enfim, entre traições, amores despedaçados, ódios reprimidos e momentos de alguma dor, "Madame Bovary" coloca-nos perante um universo narrativo denso e sem perspectivas, onde poucos personagens são capazes de gerar a nossa simpatia. Claude Chabrol não tem contemplações para com a sua protagonista. É um filme emocionalmente violento, que apresenta lados mais negros da humanidade, nem tem tréguas para com os seus personagens.

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Atriz Isabelle Huppert

 
FICHA TÉCNICA:

Produtor: Marin Karmitz
Diretor: Claude Chabrol
Roteiro: Claude Chabrol, baseado no romance de Gustave Flaubert
Fotografia: Jean Rabier
Direção de arte: Michele Abbé-Vannier
Indicação ao Oscar de Melhor figurino.
Indicação ao Globo de Ouro de Melhor filme estrangeiro
Melhor Atriz (Isabelle Huppert) no Festival de Cinema de Moscou


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PAULA ADRIANA NEVES COUTO
PSICANALISTA
paulaadriana.couto@gmail.com
tel: (11) 9 7656-7297
Consultório: Av. Leôncio de Magalhães, 1138 - Jdim São Paulo


Próximo  ao Metrô Jdim São Paulo
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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Minha leitura: S. Freud. Psicanálise e Psiquiatria. CONFERÊNCIAS INTRODUTÓRIAS SOBRE A PSICANÁLISE (1916 - 1917).

PAULA ADRIANA NEVES COUTO
PSICANALISTA
paulaadriana.couto@gmail.com
tel: (11) 9 7656-7297
Consultório: Av. Leôncio de Magalhães, 1138 - Jdim São Paulo
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Freud tinha o desejo de expor e compartilhar suas ideias, e entre as várias obras que escreveu para esse fim se destacam as Conferências introdutórias à psicanálise, publicadas em 1916-1917. Durante muitos anos deu séries de conferências na Universidade de Viena, onde era “professor extraordinário”, e resolveu publicar em livro a última dessas séries. 

Essas conferências são divididas em três partes. Após capturar a atenção do leitor com a explicação psicanalítica para fenômenos insólitos, mas comuns a todas as pessoas, que são os atos falhos (na primeira parte) e os sonhos (na segunda), Freud expõe sua abordagem das neuroses e apresenta a terapia psicanalítica (terceira parte). 

Primeira parte: Os atos falhos

Segunda parte: Os sonhos

Terceira parte: Teoria geral das neuroses - Iniciarei minhas leituras pela Conferência que aborda as neurose.
Conferência XVI – Psicanálise e Psiquiatria:

“Não desejo suscitar convicção; desejo estimular o pensamento e derrubar preconceitos. Se, em decorrência da falta de conhecimento do material, os senhores não estão em condições de emitir um julgamento, não deveriam nem acreditar, nem rejeitar. Deveriam ouvir atentamente e permitir que atue nos senhores aquilo que lhes digo. Não é tão fácil adquirir convicções; ou se estas são alcançadas facilmente,  logo se revelam sem valor e incapazes de resistência. A única pessoa que tem o direito de possuir uma convicção é alguém que, como eu, tenha trabalhado, por muitos anos, o mesmo material e que assim agindo, tenha tido, por si próprio, as mesmas  e surpreendentes experiências. De que servem então, na esfera do intelecto  essas convicções súbitas essas conversões-relâmpago, essas rejeições instantâneas? Não está claro que o ‘coup de foudre’, amor a primeira vista, deriva de esfera bem diferente, da esfera das emoções? Nem mesmo dos nossos pacientes exigimos  que devem convencer-se da verdade da psicanálise, no tratamento, ou aderir a ela. Tal atitude frequentemente levanta nossas suspeitas. A atitude que neles achamos mais desejável é a de um benévolo ceticismo.     Assim, também os senhores devem esforçar-se por deixar que os pontos de vista psicanalíticos amadureçam tranquilamente nos senhores, junto com a visão popular ou psiquiátrica, até surgir a oportunidade de ambas se influenciarem reciprocamente, de uma competir com a outra e de se aliarem no rumo de uma conclusão.”  S. Freud. Conferências  Introdutórias  sobre  a Psicanálise. Conferência XVI – Psicanálise e Psiquiatria (1917)

O primeiro capítulo da conferência XVI é justamente uma separação entre psicanálise e psiquiatria.  Qual a necessidade de diferenciar a psicanálise e psiquiatria justamente quando Freud irá esmiuçar a neurose? Talvez porque a neurose esteja na vida cotidiana, em nossas palavras óbvias e em nossas repetições e o  sintoma como uma representação de todas essas coisas que precisam ser ditas.  É difícil ouvir os pacientes com suas obviedades e nos detalhes do dia a dia. Em relação à neurose existem diferenças fundamentais entre psicanálise e psiquiatria: na constituição da própria neurose, naquilo que é considerado sintoma e principalmente  no manejo com os pacientes.

Freud construiu uma teoria calcado no seu  trabalho como clínico: “Por outro lado, não devem, de modo algum, supor que aquilo que lhes apresento  como conceito psicanalítico seja um sistema especulativo. Pelo contrário é empírico  - seja uma expressão direta  das observações, seja um processo consistente em trabalha-las exaustivamente . Se esse trabalho exaustivo foi executado de uma maneira adequada e fundamentada, isto se verá no decorrer de futuros progressos da ciência, e realmente posso afirmar, sem jactância , após um período de quase vinte e cinco anos e tendo atingido uma idade razoavelmente avançada (60 anos), que essas observações são o resultado de trabalho especialmente difícil, intensivo e aprofundado. Frequentemente tive a impressão de que nossos opositores relutavam em levar  em conta essas origem de nossas teses, como se pensassem que se tratava apenas de noções determinadas subjetivamente, às quais qualquer um podia opor outras, de sua própria escolha. Essa conduta dos nossos opositores não me é completamente compreensível, Talvez se deva ao fato de que, como médico, habitualmente se tem tão pouco contato com pacientes neuróticos e se presta tão pouca atenção ao que dizem esses pacientes que não se pode . imaginar a possibilidade de que se possa derivar algo de valioso de suas comunicações. – Isto é, a possibilidade de efetuar acuradas observações a respeito delas.” .”  S. Freud. Conferências  Introdutórias  sobre  a Psicanálise. Conferência XVI – Psicanálise e Psiquiatria (1917)

Freud construiu sua obra aos olhos de seus leitores, não aguardou estar pronto para apresentar a psicanálise, assumiu o risco de tempos em tempos revisá-la, construir, desconstruir e quando necessário reconstruí-la. “Também posso declarar que, no transcorrer do meu trabalho tenho modificado minhas opiniões em alguns pontos importantes  tenho-as alterado e substituído por outras , novas – e, em todas essas ocasiões, naturalmente, tornei isso público. E o resultado dessa sinceridade? Algumas pessoas jamais tomaram conhecimento de quaisquer de minhas autocorreções, e continuam, até hoje, a criticar-me por hipóteses que, para mim, há muito cessaram de ter o mesmo significado. Outros me reprovam justamente por estas modificações e, por causa delas, consideram-se indigno de confiança.  (...).”  S. Freud. Conferências  Introdutórias  sobre  a Psicanálise. Conferência XVI – Psicanálise e Psiquiatria (1917)

Até este momento  a principal modificação de Freud em relação a teoria psicanalítica foi o abandono da ideia de que a etiologia de neurose seria um trauma concreto (teoria da sedução). Ao invés disso, Freud instituiu a importância das  fantasias , as pulsões e a sexualidade na etiologia das neuroses.  Esta mudança é fundamental a compreensão e estudo da psicanálise. 

AÇÃO SINTOMATICA NAS NEUROSES:

ACASO – Será que existe algo que ocorre ao acaso na neurose? Ou qualquer ato é intencional/tem causa? Todo ato equivocado é um sintoma? Todo sintoma é uma doença? Como o psiquiatra percebe esta cena? E o psicanalista?
Freud exemplifica a questão do acaso e intenção através de um paciente que ao se deslocar da sala de espera à sala de atendimento se equivoca e esquece  a porta aberta. Tendo que o analista solicitar ao paciente o fechamento da porta. Geralmente as salas de atendimento têm uma acústica bem cuidada, onde manter a porta fechada é prioridade. Será que o paciente mesmo sem querer teve a intenção de deixar a porta aberta? Sendo isso, qual essa intenção? Ou foi um simples equívoco?
Será que para o psiquiatra  esse equívoco é tido como um sinal? Ou simplesmente obra do acaso?
Ao psicanalista quer dizer algo do sujeito.  “Assim a omissão do paciente não é determinada pelo acaso ou por falta de propósito; e na realidade, ela não é destituída de importância, pois conforme verificaremos, elucida a atitude do recém-chegado para com o médico.” .”  S. Freud. Conferências  Introdutórias  sobre  a Psicanálise. Conferência XVI – Psicanálise e Psiquiatria (1917)

Esse equívoco quer dizer algo para o psicanalista: decerto tem um sentido, motivo, ou intenção,  mas também é algo que o paciente não sabe de si, mas que é particular e Inconsciente. Geralmente para o psiquiatra esse ato é um simples equívoco.
RECORTE DE UMA SITUAÇÃO VIVIDA POR UM PACIENTE (EXEMPLO FORMULADO POR FREUD):

Quem solicitou o atendimento: Genro – jovem oficial de regresso a casa em período de breve licença. Paciente: mulher de 53 anos que apesar de viver um momento feliz encontrava-se amargurada por conta de uma ideia absurda.
Essa mulher vivia um casamento feliz de trinta anos. Ela e o marido casaram-se por amor, suas duas filhas também estavam casadas. O marido era um homem bom, fiel e próspero e ainda mantinha-se trabalhando.
Determinado dia, essa mulher recebe uma carta anônima, a qual acusava seu excelente marido de infidelidade com uma determinada jovem. Apesar de acreditar que essa situação seria  absurda e mentirosa,  acreditou também no teor da carta e adoece de ciúme. A mulher tem convicções opostas  (Ideias contraditórias, mas que aparentemente convivem conjuntamente). Como isso é possível?

CONSTRUÇÃO DA CENA:            
Essa mulher tinha uma empregada doméstica, com  a qual conversava bastante e contava suas intimidades. Essa empregada por sua vez tinha inimizade com uma jovem, simplesmente porque essa outra havia  prosperado na vida, diferente dela que mantivera na mesma situação, empregada doméstica.
Um dia patroa e empregada estavam conversando sobre a infidelidade de outro casal conhecido, quando  a futura paciente de Freud,  diz a sua empregada que o pior infortúnio que poderia acontecer em sua vida seria a traição do marido.
No dia seguinte a patroa  recebe uma carta anônima, onde o marido dela é acusado de infidelidade justamente com a jovem odiada pela empregada.  A partir disso, a patroa ligou os fatos   demitindo a  empregada, mantendo a jovem acusada de traição trabalhando. Entretanto a mulher mesmo que supostamente acreditando no marido, por vezes acreditava na traição, e se via corroída de ciúmes daquela jovem. Geralmente isso ocorria quando a encontrava na rua, ou alguém falava o nome dela.
Ao que parece, a mulher acreditou na traição do marido. Mesmo sabendo que isso seria impossível. Frase e situação ambígua: como se acredita e se sofre por algo que se  sabe que é impossível? Parece que essa mulher construiu uma cena para sofrer.
Diante deste recorte Freud se questiona: Qual a atitude que um psiquiatra adotaria neste caso? No caso do paciente que deixa a porta aberta, ao psiquiatra isso seria obra do acaso, sem intenção e sem interesse psicológico. No caso da mulher ciumenta esse procedimento não poderia ser mantido porque há sofrimento dos envolvidos.
O psiquiatra começaria a caracterizar o sintoma partindo de algum aspecto essencial. (A medicina parte do sintoma):
A mulher atormentada por ciúme, a ideia em si não é absurda, pois existem muitos homens que traem. Sendo assim, isso não caracteriza o aspecto essencial de uma doença psíquica, porque este tormento poderia ser vivido de fato.
 Existe outro aspecto importante que talvez possa ser essencial: essa mulher  quando recebeu a carta anônima sugerindo a traição do marido, o que ela faz? Manda a empregada embora e mantém a jovem trabalhando na fábrica, enfim, demonstrando que sabe da invenção. Entretanto continua sofrendo com esta estória inventada.
Delírio de ciúme: “Ideias desse tipo, inacessíveis a argumentos lógicos baseados na realidade, são, segundo o consenso geral, descritas como delírios. A boa senhora  portanto, estava sofrendo de delírios de ciúme. Este é, sem dúvida, o aspecto essencial deste caso mórbido.“ .”  S. Freud. Conferências  Introdutórias  sobre  a Psicanálise. Conferência XVI – Psicanálise e Psiquiatria (1917)

Qual a leitura do psiquiatra diante do delírio? O delírio não cessa mediante referências da realidade. O delírio não surgiu da realidade. O que é o delírio? O delírio pode ter diversos conteúdos, por que neste caso o delírio foi de ciúme?
Frente a essas questões o psiquiatra investigaria a história familiar da paciente buscando antecedentes do distúrbio psíquico em outros familiares (predisposição hereditariedade). A partir da hipótese da transmissão hereditária: Será que esse problema (delírio) surgiria de qualquer maneira nesta mulher? Ou seria um capricho, ou “birra”? Ou ainda, caso não houvesse antecedentes familiares da doença, ocorreria o delírio? Enfim, o psiquiatra frente a um caso como este se contenta em fornecer diagnóstico e prognóstico incerto. Isso daria conta de sanar o mal estar desta paciente? Qual o manejo do psiquiatra diante do delírio?
“Pode a psicanálise ir além, em um caso destes? Sim, ela realmente pode. Espero conseguir mostrar-lhes que, mesmo num caso assim, tão difícil de abordar, ela pode descobrir algo que possibilite uma primeira compreensão. E antes de mais nada, eu atrairia a atenção dos senhores para o detalhe notório  de que a própria paciente positivamente provocou a carta anônima, tendo, agora, dado apoio a seu delírio, ao informar à empregada intrigante, no dia anterior, que lhe causaria a maior infelicidade se seu marido tivesse um caso amoroso com uma jovem.” .”  S. Freud. Conferências  Introdutórias  sobre  a Psicanálise. Conferência XVI – Psicanálise e Psiquiatria (1917)
  1. A patroa incute na empregada à ideia de enviar a carta anônima.
  2. A ideia do delírio já estava presente independente da carta anônima. Na forma de medo de ser traída. Freud ainda coloca: medo ou desejo de ser traída ou trair?

Freud acrescenta outras indicações após duas sessões analíticas:
“A paciente, na realidade, conduziu-se de maneira bastante não cooperativa quando, após haver contado sua história. Perguntei-lhe por seus outros pensamentos, ideias e lembranças. Disse que não lhe ocorria nada à mente, que já me havia dito tudo; e depois de duas sessões,  a tentativa de tratamento comigo realmente teve que ser interrompida, pois declarou que já se sentia bem e estava segura de que a ideia patológica não retornaria. Naturalmente ela disse isto apenas devido à sua resistência e ao receio da continuação da análise. Não obstante, durante essas duas sessões, fez algumas observações que permitiram, e realmente exigiram, uma interpretação especial; e essa interpretação lançou viva luz sobre a gênese de seu delírio de ciúme.” .”  S. Freud. Conferências  Introdutórias  sobre  a Psicanálise. Conferência XVI – Psicanálise e Psiquiatria (1917)

Essa mulher estava apaixonada por um homem jovem, o  genro que a trouxe para análise. Ela mesma não tinha noção de que estava apaixonada por este homem, essa afeição se disfarçava pelo fato de serem familiares. A possibilidade de sentir ou viver esta paixão era inadmissível a consciência, permanecendo inconsciente, mas  pressionando á advir. 
O alívio encontrado surgiu na construção do delírio de ciúme (deslocamento): Ao invés dela viver está paixão com um homem mais jovem, o seu marido a trai com uma jovem. De alguma maneira, pelo menos do ponto de vista moral ela resolve sua dor.  Não só ela é infiel, mas seu marido também é.

“A fantasia da infidelidade de seu esposo agiu assim como uma compressa fria em sua ferida ardente. O amor que ela própria abrigava não se lhe tornara consciente; porém, seu reflexo especular, que lhe deu tal vantagem, agora se tornou consciente como uma obsessão e um delírio.” . S. Freud. Conferências  Introdutórias  sobre  a Psicanálise. Conferência XVI – Psicanálise e Psiquiatria (1917)

“Naturalmente nenhum argumento em contrário podia surtir qualquer efeito, pois o argumento era dirigido contra a imagem especular, e não contra a imagem original que deu à outra sua força e que permanecia oculta, inviolável, no inconsciente.” .  S. Freud. Conferências  Introdutórias  sobre  a Psicanálise. Conferência XVI – Psicanálise e Psiquiatria (1917)

Baseado nas indicações acima é possível chegar a algumas constatações:

O delírio tem um sentido e motivos fundamentais. Ajustou-se ao contexto de uma experiência emocional  da paciente.
O delírio tem serventia – como reação a um processo psíquico inconsciente. Esse delírio é uma espécie de consolação, de alguma forma foi almejado.   Entretanto Justamente por conta dos aspectos  inconscientes,  o uso da  lógica, de dados da realidade não causam efeitos.
No caso desta paciente, o fato de ser um delírio de ciúmes foi determinado pela experiência que esta por trás da doença. A própria paixão pelo  genro, as triangulações envolvidas e a maneira como essa mulher lida com seus afetos, investimentos e fantasias são resultados da neurose.
Em relação aos dois saberes: existe algum sinal de contradição ou oposição  entre a psiquiatria e a psicanálise? Saberes diferentes, mas que aparentemente não se opõe.
Segundo Freud: “A psiquiatria não emprega os métodos técnicos da psicanálise; toca superficialmente qualquer inferência acerca do conteúdo do delírio, e ao apontar para a hereditariedade, dá-nos uma etiologia geral e remota, em vez de indicar, primeiro, as causas mais especiais e próximas. Mas existe uma contradição uma oposição nisso? Não é o caso de uma suplementar a outra? O fator hereditário contradiz a importância da experiência? Ambas as coisas não se combinam da maneira mais efetiva? Os senhores não existir nada na natureza do trabalho psiquiátrico que possa opor-se à investigação psicanalítica. O que se opõe à psicanálise não é a psiquiatria, mas os psiquiatras. A psicanálise relaciona-se com a psiquiatria aproximadamente como a histologia se relaciona com a anatomia: uma estuda as formas externas dos órgãos, a outra estuda sua estruturação em tecidos e células. Não é fácil imaginar uma contradição entre essas duas espécies de estudo, sendo um a continuação do outro. Atualmente, como sabem, a anatomia é considerada por nós como fundamento da medicina científica. Houve, todavia, época em que era tão proibido dissecar um cadáver humano, a fim de descobrir a estrutura interna do corpo, como hoje (1916) parece ser o exercício da psicanálise, esclarecer acerca do mecanismo interno da mente. É de se esperar que, em futuro não muito distante, perceber-se-á que uma psiquiatria cientificamente fundamentada não será possível sem um sólido conhecimento dos processos inconscientes profundos da vida psíquica.” .”  S. Freud. Conferências  Introdutórias  sobre  a Psicanálise. Conferência XVI – Psicanálise e Psiquiatria (1917)
  



terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Como medir o tempo?


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Estou quase de férias, menos coisas a fazer e em compensação mais tempo para pensar, para cuidar do tempo livre, sendo assim decidi pensar no tempo....

Se estamos fazendo algo que nos dá prazer o tempo voa, mas em compensação, quando estamos fazendo algo chato ou tedioso o tempo não passa. Enfim, como é possível pensar a mensuração do tempo pelo prazer e desprazer e não no tempo medido em segundos ou minutos? O valor que damos ao tempo  depende de nossa subjetividade.

Pensar no tempo, é nos deparar com a liberdade que o tempo ocioso nos dá, podemos fazer o que quisermos, ou fazer nada. Em compensação,  na atualidade, "não fazer nada" é ir completamente ao avesso das demandas sociais, àquilo que é supostamente correto, principalmente, nesta época de final de ano.

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"Time is money" que mentira cabeluda. "Tempo é dinheiro" é exclusivo àquele que  visa o lucro. Tempo não  é dinheiro, ao contrário vendemos nosso tempo por dinheiro, por pouco dinheiro ou muito dinheiro, mas com este mesmo dinheiro que obtemos com nosso trabalho, com o gasto do nosso tempo, podemos somente comprar coisas, e claro sobreviver, mas não podemos entrar numa loja, e comprar "tempo."Enfim, o tempo que vendemos à alguém, já está vendido e pronto. "Perdeu playboy"

Agora, quando se esgota o tempo que temos de vida, não recebemos aviso prévio, não somos avisados que o nosso tempo terminou. Morremos simplesmente. Alguns vivem 5 anos, ou 60 anos, outros ainda 104 anos, mas a morte é sempre inesperada. Não temos o menor controle sobre o nosso tempo de vida. Tentamos controlar nosso tempo, mas não temos controle algum, e infelizmente também, quase nunca  pensamos em aproveitar o tempo de uma maneira prazerosa, como se cada dia fosse o último dia.

Agora, se pensarmos no tempo como algo finito, continuamos a não controlar o tempo, mas podemos utilizar o tempo de maneira interessante. Trabalhar com aquilo que a gente ama, e não só porque teremos mais dinheiro ou poder, mas pelo próprio prazer do minuto a minuto. Conviver com aqueles que desejamos, sorrir quando tivermos vontade e chorar também, por que não? Enfim o tempo está ai para ser utilizado como um bem precioso ou usar como qualquer coisa. A escolha é de cada um.
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Paula Adriana Neves Couto
Psicanalista
Consultório: Av Leôncio de Magalhães, 1138 - Jdim São Paulo


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Minha leitura : As cinco lições de psicanálise (1909) Freud.

QUINTA LIÇÃO

Freud na quinta lição inicia abordando a relação entre as insatisfações das necessidades sexuais (componentes eróticos pulsionais) na vida em civilização, e os sintoma como uma via de satisfação, dolorosa diga-se de passagem. O neurótico utiliza-se do sintoma para satisfazer parcialmente ou integralmente suas necessidades sexuais. Como os sintomas exercem este papel de substitutos das satisfações ? Segundo Freud, o indivíduo distancia-se da realidade, utilizando-se a fantasia para encontrar as satisfações do sintoma. 

É possível entender a resistência como algo inerente ao tratamento, pois abrir mão da satisfação que o sintoma proporciona é uma tarefa árdua ao neurótico, além disso o sintoma é composto de vários elementos que são dirimidos lentamente ao longo do trabalho.  

Sobre a resistência, Freud diz: "Não somente o eu do doente se recusa a desfazer o recalque por meio da qual se esquivou de suas disposições originárias, como também pode a pulsão sexual não renunciar à satisfação vicariante  enquanto houver dúvida de que a realidade lhe ofereça algo melhor." As cinco lições de psicanálise (1909) Freud - Quinta Lição 

O neurótico foge da realidade como esta se apresenta, dura e  na maioria das vezes desprazerosa. O recalque é o caminho que  armazena os impulsos pulsionais no inconsciente. Os desejos infantis são recalcados no inconsciente, desde as primeiras fases da vida sexual, ou seja, desde os primeiros investimentos libidinais. Houve algum primeiro momento de satisfação total? Não, mas houveram satisfações parciais. 

No sintoma, há regressão tanto do ponto de vista temporal: a libido regride ao momento anterior, onde houve uma suposta satisfação. Formal: emprega os meios psíquicos originários e primitivos para manifestação da mesma necessidade. Sobre esses dois aspectos Freud diz: "Sob ambos os aspectos a regressão orienta-se para a infância, restabelecendo um estado infantil da vida sexual." As cinco lições de psicanálise (1909) Freud - Quinta Lição 

Diferentes dos outros animais, o humano é mortal, sexual e falante e isso traz perdas, pois sabemos que um dia iremos morrer, nossos desejos sexuais são singulares e o ato de falar é um sinal de que algo faltou, porque se estivéssemos satisfeitos não precisaríamos falar. Temos limites, A realidade comparada a fantasia é sempre insatisfatória, o neurótico mantém uma vida de fantasia, onde de alguma forma consegue satisfazer parcialmente suas necessidades e realizar seus desejos. Freud diz: "Nestas fantasias há muito da própria natureza constitucional da personalidade e muito dos afetos recalcados." As cinco lições de psicanálise (1909) Freud - Quinta Lição 

O neurótico almeja uma satisfação impossível e se utiliza do sintoma para amenizar sua dor de ser humano. Entretanto Freud, num pequeno recorte abaixo, fala de uma correlação entre a realidade e a fantasia e uma suposta satisfação para alguns poucos que conseguem. Será que isso seria possível? 

"O homem enérgico e vencedor é aquele que pelo próprio esforço consegue transformar em realidade seus castelos no ar. Quando esse resultado não é atingido, seja por oposição do mundo exterior, seja por fraqueza do indivíduo, este se desprende da realidade, recolhendo-se aonde pode gozar, isto é, ao seu mundo de fantasia, cujo conteúdo, no caso de moléstia, se transforma em sintoma. Em certas condições favoráveis, ainda lhe é possível encontrar outro caminho dessas fantasias para a realidade, em vez de se alhear (afastar-se) dela definitivamente pela regressão ao período infantil." As cinco lições de psicanálise (1909) Freud - Quinta Lição 

Essa intersecção entre a realidade e a fantasia é impossível de se realizar, porque o humano é pulsional, não quer o que deseja ou deseja o que não quer. Sempre a realidade é faltosa. Quando alcança alguma coisa, já quer outra coisa.

Em Freud, ainda neste momento, haveria  indivíduos neuróticos, psicóticos e perversos, mas também aqueles que seriam saudáveis, sem qualquer problema psíquico. Diferente de como eu vejo, pois penso a neurose, psicose e perversão como estruturas e não como estados de doença ou não. Sendo assim essa parte do texto fica confusa, mas tentarei construir algo:

"Quando a pessoa inimizada com a realidade possui dotes artísticos(psicologicamente ainda enigmáticos) podem suas fantasias transmudar-se não em sintomas senão em criações artísticas; subtrai-se desse modo à neurose e reata as ligações com a realidade. (Cf. Rank, 1907). Quando com a revolta perpétua contra o mundo real faltam ou são insuficientes esses preciosos dons, é absolutamente inevitável que a libido, seguindo a origem da fantasia, chegue ao reavivamento dos desejos infantis, e com isso à neurose, representante, em nossos dias, do claustro aonde costumavam recolher-se todas as pessoas desiludidas da vida ou que se sentiam fracas demais para viver."As cinco lições de psicanálise (1909) Freud - Quinta Lição 

"Seja-me lícito referir neste ponto o que de mais importante pudemos conseguir pelo estudo psicanalítico dos nervosos, e vem a ser que as neuroses não têm um conteúdo psíquico que, como privilégio deles, não se possa encontrar nos sãos; segundo expressou C. G. Jung, aqueles adoecem pelos mesmos complexos com que lutamos nós, os que temos saúde perfeita. Conforme as circunstâncias de quantidade e da proporção entre as forças em choque, será o resultado da luta a saúde, a neurose ou a sublimação compensadora.  As cinco lições de psicanálise (1909) Freud - Quinta Lição 

Segundo Freud a diferença do neurótico e o não neurótico(supostamente saudável) não está no conteúdo recalcado. O que faz um indivíduo adoecer é o caminho  percorrido pela libido na busca por satisfações substitutivas, ou seja, o sintoma é uma via dolorosa de investimento libidinal, mas existem outras vias de satisfação, exemplo sublimação.

Os primeiros investimentos libidinais do indivíduo  com o mundo externo são às figuras da mãe e do pai, e são justamente os afetos, as imagos, ideias e representações pulsionais envolvidos nestes primeiros e primitivos investimentos que são recalcados. Por que são recalcados? O recalque ocorre sob no mínimo dois aspectos: porque são grandes quantidades de carga de excitação envolvido nestes investimentos para um corpo infantil despreparado, e são desejos sexuais incestuosos e parricidas que são interditados.

Esses conteúdo pulsionais em qualquer tempo, em situação privilegiada são reinvestidos libidinalmente, promovendo a revivência destes antigos "amores". - transferência.

"Senhoras e senhores. Não lhes falei até agora sobre a experiência mais importante, que vem confirmar nossa suposição acerca das forças instintivas sexuais da neurose. Todas as vezes que tratamos psicanaliticamente um paciente neurótico, surge nele o estranho fenômeno chamado "transferência", isto é, o doente consagra ao médico uma série de sentimentos afetuosos, mesclados muitas vezes de hostilidade, não justificados em relações reais e que, pelas suas particularidades, devem provir de antigas fantasias tornadas inconscientes. Aquele trecho da vida sentimental cuja lembrança já não pode evocar, o paciente torna a vivê-lo nas relações com o médico; e só por este ressurgimento na "transferência" é que o doente se convence da existência e do poder desses sentimentos sexuais inconscientes. " As cinco lições de psicanálise (1909) Freud - Quinta Lição 

Durante o trabalho analítico ocorre a transferência (não é uma situação exclusiva da análise, pode ocorrer a transferência nas diversas relações humanas) e consequentemente os sintomas entram em cena. O analista a partir desta situação transferencial colocada, trabalha com o paciente até os sintomas dissolverem-se. Segundo Freud: "A transferência surge espontaneamente em todas as relações humanas e de igual modo nas que o doente entretém com o médico; é ela, em geral, o verdadeiro veículo da ação terapêutica, agindo tanto mais fortemente quanto menos se pensa em sua existência. A psicanálise, portanto, não a cria; apenas a desvenda à consciência e dela se apossa a fim de encaminhá-la ao termo desejado." As cinco lições de psicanálise (1909) Freud - Quinta Lição 

Freud aborda os obstáculos à aceitação das ideias psicanalíticas até aquele momento (1909) pelos médicos ou pelos leigos:

    • Há certo determinismo na vida psíquica. Existe algo no próprio indivíduo que ele não acessa quando deseja. Existe uma parte de nós inacessível, se movimenta a partir deste determinismo. 
    • Existe uma divisão psíquica entre as instâncias: pré consciente/consciente e o inconsciente, o conflito existente entre estas instâncias e principalmente o medo de que a psicanálise traga a tona aspectos inconscientes, supostamente armazenados e protegidos são também obstáculos a aceitação da psicanálise. Aquela ideia de que se não mexer em alguma coisa que está quieta, a ideia permanecerá "adormecida". Entretanto, Freud já percebe a influência cabal do inconsciente nos processos conscientes, principalmente nas supostas moléstias psíquicas. 
Freud faz uma analogia bem interessante entre o trabalho  da psicanálise e o do cirurgião:  "(...)Todos sabem, porém, que o cirurgião não deixa de examinar, palpando o foco da moléstia, quando tem em vista realizar uma operação que há de proporcionar a cura completa. Ninguém pensa já em incriminá-lo pelos inevitáveis incômodos do exame nem pelos fenômenos pós-operatórios, desde que a operação tenha bom êxito e que, mediante a agravação passageira do mal, o doente alcance a definitiva supressão do estado mórbido. Em relação à psicanálise, as condições são semelhantes; pode ela reivindicar os mesmos direitos que a cirurgia; a exasperação (irritação) dos incômodos que impõe ao doente durante o tratamento é, uma vez observada a boa técnica, incomparavelmente menor que a infligida pelo cirurgião, e em geral nem deve ser tomada em consideração diante da gravidade da moléstia principal." As cinco lições de psicanálise (1909) Freud - Quinta Lição 

Outro obstáculo a aceitação da psicanálise está na questão: O que ocorre ao final do trabalho psicanalítico com os impulsos pulsionais supostamente libertados do recalque?

O desejo infantil no inconsciente é investido pela libido insistentemente, mantendo-se com grande carga de excitação,  portanto tem muito mais força, do que quando advém a consciência, nesta outra instância a tendência é o enfraquecimento. A partir da consciência essas moções pulsionais antes super excitadas, percorrem outros caminhos, ou seja,aquilo que estava fixo no inconsciente, se movimenta.

Quais os meios para tornar esses impulsos pulsionais  inofensivos à vida do indivíduo? Desses meios há vários. 

--> Na consciência ao invés do recalque há o julgamento de condenação. Há possibilidade de colocar em palavras, portanto há movimento.

"Como o indivíduo na época se achava ainda incompletamente organizado, não pôde senão recalcar a pulsão inutilizável; mas na força e madureza de hoje, pode talvez dominar perfeitamente aquilo que lhe é hostil." As cinco lições de psicanálise (1909) Freud - Quinta Lição 

--> A sublimação é outra saída a esses impulsos pulsionais (desejos infantis). Freud tem vários conceitos sobre a sublimação. Reinvestimento libidinal nestes impulsos pulsionais, entretanto de maneira dessexualizada.

-->  Certa parte dos desejos libidinais recalcados devem ser satisfeitos diretamente, através da atividade sexual.  O indivíduo neurótico substitui parte de sua atividade sexual pelo sintoma, em contrapartida a medida que diminui os sintomas, sua vida sexual deve tornar-se mais interessante.

Esse finalzinho do texto achei genial, porque Freud fala do desejo como algo que mantem o indivíduo vivo e desejante:

"Não sei se da parte dos senhores considerarão como presunção minha a admoestação com que concluo. Atrevo-me apenas a representar indiretamente a convicção que tenho, narrando-lhes uma anedota já antiga, cuja moralidade os senhores mesmo apreciarão. A literatura alemã conhece um vilarejo chamado Schilda, de cujos habitantes se contam todas as espertezas possíveis. Dizem que possuíam eles um cavalo com cuja força e trabalho estavam satisfeitíssimos. Uma só coisa lamentavam: consumia aveia demais e esta era cara. Resolveram tirá-lo pouco a pouco desse mau costume, diminuindo a ração de alguns grãos diariamente, até acostumá-lo à abstinência completa. Durante certo tempo tudo correu magnificamente; o cavalo já estava comendo apenas um grãozinho e no dia seguinte devia finalmente trabalhar sem alimento algum. No outro dia amanheceu morto o pérfido animal; e os cidadãos de Schilda não sabiam explicar por quê.
Nós nos inclinaremos a crer que o cavalo morreu de fome e que sem certa ração de aveia não podemos esperar em geral trabalho de animal algum." As cinco lições de psicanálise (1909) Freud - Quinta Lição 




quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Minha leitura : As cinco lições de psicanálise (1909) Freud.

Quarta Lição


Esta lição faz parte do texto: “As cinco lições de psicanálise” palavras pronunciadas por Freud em ocasião das comemorações do vigésimo aniversário da Fundação da Clark University, Worcester, Massachusetts, setembro de 1909.
Nesta lição Freud fala sobre sexualidade infantil, e sua relevância na etiologia da neurose: dos complexos patogênicos e dos desejos recalcados. Os sintomas neuróticos estariam relacionados às impressões da vida erótica, vividos na primeira infância.  
Sobre a etiologia sexual na neurose, Freud diz: "Quando, em 1895, publiquei com o Dr. J. Breuer os Estudos sobre a Histeria, ainda não tinha esta opinião; vi-me forçado a adotá-la quando as minhas experiências se tornaram mais numerosas e penetraram mais intimamente o problema. Senhores! Acham-se entre os presentes alguns de meus adeptos e amigos mais chegados, que viajaram comigo até Worcester. Se os interrogarem, ouvirão que todos eles a princípio recebiam com a maior descrença a afirmação da importância decisiva da etiologia sexual, até que pelo exercício analítico pessoal foram obrigados a aceitar como sua própria àquela afirmação." Freud S. Cinco lições de Psicanálise Sigmund Freud - QUARTA LIÇÃO. (1909).
 "O trabalho de análise necessário para o esclarecimento completo e cura definitiva de um caso mórbido não se detém nos episódios contemporâneos da doença; retrocede sempre, em qualquer hipótese, até a puberdade e a mais remota infância do doente, para só aí topar as impressões e acontecimentos determinantes da doença ulterior. Só os fatos da infância explicam a sensibilidade aos traumatismos futuros e só com o descobrimento desses restos de lembranças, quase regularmente olvidados, e com a volta deles à consciência, é que adquirimos o poder de afastar os sintomas." Freud S. Cinco lições de Psicanálise Sigmund Freud - QUARTA LIÇÃO. (1909).
Os desejos recalcados da infância são indestrutíveis, e estes emprestaram à formação dos sintomas força a sua sustentação. 
Falar sobre sexualidade humana é um tanto complicado, até mesmo nos dias atuais, imagine falar sobre sexualidade infantil em 1900? Freud utilizou diversos recursos para explicar a sua psicanalise, inclusive interagindo com outros autores: "Por um feliz acaso acho-me em condições de chamar dentre os presentes uma testemunha em favor de minhas afirmações. Eis aqui o trabalho do Dr. Sanford Bell, impresso em 1902, em The American Journal of Psychology. O autor é um Fellow da Clark University, o mesmo instituto em cujo seio nos achamos no atual instante. Nesse trabalho, intitulado "A Preliminary Study of the Emotion of Love Between the Sexes", publicado três anos antes dos meus Three Essays on the Theory of Sexuality [1905 d], (Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade), escreve o autor, tal qual há pouco lhes dizia: "A emoção do amor sexual… não aparece pela primeira vez no período da adolescência, como se tem pensado." Procedendo "à americana", como diríamos na Europa, reuniu durante 15 anos nada menos de 2.500 observações positivas, das quais 800 são próprias. Dos sinais por que se revelam esses temperamentos namoradiços, diz ele: "O espírito mais desprevenido, observando estas manifestações em centenas de casais de crianças, não poderá deixar de atribuir-lhes uma origem sexual." O mais rigoroso espírito satisfaz-se quando a estas observações se juntam as confissões dos que em criança sentiram a emoção intensamente e cujas recordações daquela época são relativamente nítidas". Freud S. Cinco lições de Psicanálise Sigmund Freud - QUARTA LIÇÃO. (1909). 

"Não me admiraria se estas observações de seu compatriota lhes merecessem mais crédito que as minhas. A mim mesmo foi-me dado obter recentemente um quadro mais ou menos completo das manifestações instintivas somáticas e das produções mentais num período precoce da vida amorosa infantil, graças à análise empreendida, com todas as regras, pelo próprio pai de um menino de cinco anos atacado de ansiedade. Devo lembrar-lhes que meu amigo Dr. C. G. Jung há poucas horas, nesta mesma sala, lhes expôs a observação de uma menina ainda mais nova, que pelo mesmo motivo do meu paciente (nascimento de um irmãozinho) evidenciava quase os mesmos impulsos sensuais e idêntica formação de desejos e complexos. [Cf. Jung, 1910.] Não duvido, pois, de que os presentes se acabarão familiarizando com a ideia, de início tão exótico, da sexualidade infantil; memore-se o exemplo notável do psiquiatra E. Bleuler, de Zurique, que há poucos anos dizia publicamente que não compreendia minha teoria sexual’ mas que de então para cá, pôde, mediante observações próprias, confirmar a sexualidade infantil em toda a extensão (Cf. Bleuler, 1908.)." Freud S. Cinco lições de Psicanálise Sigmund Freud - QUARTA LIÇÃO. (1909).

A sexualidade infantil:

A sexualidade não esta relacionada exclusivamente a reprodução, mas principalmente a obtenção de sensações prazerosas no corpo. A principal  fonte de prazer sexual infantil é proveniente do seu próprio corpo, das excitações das zonas erógenas. Determinadas partes do corpo são particularmente excitáveis, além dos órgãos genitais: os orifícios da boca, ânus e uretra e também a pele e outras superfícies sensoriais. Qualquer parte do corpo pode ser excitável e excitante, a medida que é investida libidinalmente por um cuidador. As zonas erógenas existem porque são investidas no momento da alimentação, no momento do banho, na educação ao controle esfincteriano. A fase da vida sexual infantil onde a satisfação é obtida através do próprio corpo é denominada de auto erotismo. 
Ao lado das atividades auto eróticas, revelam-se muito cedo as escolhas objetais. Ou seja, a libido é investida em objetos externos, com o intuito de se obter prazer. 

Há o abandono do autoerotismo, para só depois investir nos objetos do mundo externo? Como o bebê elege os objetos a serem investidos? Na realidade não existe um objeto propriamente dito, existe sim o prazer sentido em alguma parte do corpo e a ânsia que isso se repita. Como  desejo e amor se articulam? Já que o objeto investido libidinalmente é a princípio o objeto amado. O objeto amado é desejado também?

As escolhas dos objetos neste momento estão relacionadas à conservação.  Ou seja, os objetos investidos libidinalmente pelo bebê, são aqueles que satisfazem suas necessidades básicas (alimentação, frio e fome), mas também de amor. Afinal, nós humanos somos seres pulsionais, não temos um objeto especifico que nos satisfaça, e nossas satisfações são sempre parciais. O bebê à medida que é alimentado é investido libidinalmente, e investe nos objetos. O amor, necessidade e desejo dos pares se entrelaçam: investimos à medida que somos investidos. É absolutamente normal e inevitável que a criança faça dos pais o objeto da primeira escolha amorosa. Porém a libido não permanece fixa neste primeiro objeto: posteriormente o tomará apenas como modelo, passando dele para pessoas estranhas, na ocasião da escolha definitiva. 

Pulsão e sexualidade:

A pulsão é um conceito que esta entre o somático e o psíquico: temos uma base fisiológica do psiquismo que apresenta muitas peculiaridades que nos torna radicalmente diferentes dos outros animais. Somos pulsionais, falantes, mortais e sexuais. 
Nesta parte do texto Freud aborda os aspectos da oposição nas pulsões: ativo e passivo. Será que essas posições em relação aos objetos são de oposição definitiva? Ou o sujeito modifica sua posição a partir do objeto eleito? Ou ainda a escolha do objeto estaria relacionada à maneira, tal qual o posicionamento do objeto? O sadismo e o masoquismo são exemplos desta oposição, ou ainda o prazer visual, ativo ou passivo.
"Do gozo visual ativo desenvolve-se mais tarde a sede de saber, como do passivo o pendor para as representações artísticas e teatrais." Freud S. Cinco lições de Psicanálise Sigmund Freud - QUARTA LIÇÃO. (1909).
Mantem-se zona erógena de satisfação parcial. (do gozo visual a sede de saber) Posicionamento ativo. Ou a satisfação passiva de ser vista, ou talvez neste caso a posição reflexiva, como no caso do ator, ele se põe a ser visto. Enfim, neste paragrafo Freud introduz o olhar como uma suposta zona erógena, e também introduz a posição reflexiva, apesar de colocar o ator como passivo.

Sobre a sexualidade infantil Freud diz:

"Esta vida sexual infantil desordenada, rica, mas dissociada, em que cada impulso isolado se entrega à conquista do gozo independentemente dos demais, experimenta uma condensação e organização em duas principais direções, de tal modo que ao fim da puberdade o caráter sexual definitivo está completamente formado. De um lado subordinam-se todos os impulsos ao domínio da zona genital, por meio da qual a vida sexual se coloca em toda a plenitude ao serviço da propagação da espécie, passando a satisfação daqueles impulsos a só ter importância como preparo e estímulo do verdadeiro ato sexual.” Freud S. Cinco lições de Psicanálise Sigmund Freud - QUARTA LIÇÃO. (1909)

Além da condensação o sujeito psiquicamente vai “organizando” o caos: de sua pulsão (perversa e polimorfa), de seu desejo e consequentemente de seus investimentos libidinais.  Para isso, impulsos são recalcados e algumas forças psíquicas surgem como sentinelas: moral, repugnância e a vergonha/constrangimento. Claro que, essas organizações, parâmetros e limites são alcançados, mas com perdas. O sujeito se submete a isso por amor. Os Ideais são construídos para servirem de parâmetros e limites, em contrapartida algo que exige do sujeito por vezes o inalcançável. Dos primeiros investimentos da criança surgem os modelos de objeto amoroso, mas também os modelos de identificação: de ternura e hostilidade.

"Senhores. Um princípio de patologia geral afirma que todo processo evolutivo traz em si os germes de uma disposição patológica e pode ser inibido ou retardado ou desenvolver-se incompletamente. Isto vale para o tão complicado desenvolvimento da função sexual que nem em todos os indivíduos se desenrola sem incidentes que deixem após si ou anormalidade ou disposições a doenças futuras por meio de uma regressão. Pode suceder que nem todos os impulsos parciais se sujeitem à soberania da zona genital; o que ficou independente estabelece o que chamamos perversão e pode substituir a finalidade sexual normal pela sua própria. A propensão à neurose deve provir por outra maneira de uma perturbação do desenvolvimento sexual. As neuroses são para as perversões o que o negativo é para o positivo.” Freud S. Cinco lições de Psicanálise Sigmund Freud - QUARTA LIÇÃO. (1909)

Enfim, a sexualidade infantil é vivida de maneira excessivamente intensa e prematura pela criança. Esse contato com o sexual é traumático e nos conduz a uma espécie de fixação parcial. “O complexo assim formado é destinado ao recalque, porém continua a agir do inconsciente com intensidade e persistência. Devemos declarar que suspeitamos represente ele, com seus derivados, o complexo nuclear de cada neurose, e nos predispusemos a encontrá-lo não menos ativo em outros campos da vida psíquica.” Freud S. Cinco lições de Psicanálise Sigmund Freud - QUARTA LIÇÃO. (1909).

PAULA  ADRIANA NEVES COUTO
Psicanalista clínica
Email: paulaadriana.couto@gmail.com
Telefone: 3715-8494


Consultório: Av. Leôncio de Magalhães, 1138 - Jdim São Paulo